
Relatórios de Inteligência Financeira analisados pela Polícia Federal apontam que o Banco Master operava um fluxo de recursos capaz de gerar “fortes indícios” de desvio de valores e risco ao sistema financeiro nacional. Segundo a PF, documentos provenientes de RIFs mostram que empresas com capital social irrisório cederam “direitos creditórios milionárioss” para FIDCs ligados à instituição controlada por Daniel Vorcaro.
Essa conclusão embasou a segunda fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro Dias Toffoli e deflagrada nesta semana, pouco antes da liquidação extrajudicial da gestora Reag pelo Banco Central.
As movimentações reveladas pelos relatórios incluem transações consideradas suspeitas, como uma transferência de R$ 9 milhões de um intermediário para Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro. Ambos foram alvos de mandados de busca e apreensão autorizados pelo STF. “Há fortes indícios de desvio de recursos e risco sistêmico ao sistema financeiro”, registra a decisão de Toffoli que retirou o sigilo do caso nesta quinta-feira (15).
A defesa de Daniel Vorcaro sustenta que as operações seguiram regras e não tinham finalidade ilícita. “Banco Master não realizou operações destinadas a beneficiar terceiros ou familiares de seu controlador. Até a data da liquidação extrajudicial, o Sr. Vorcaro atuou de forma ativa para preservar a instituição”, afirmou em nota.
O Ministério Público Federal de São Paulo, porém, afirma que os elementos reunidos consolidam um quadro mais profundo. Para os procuradores, o histórico das investigações demonstra “a existência do crime de organização criminosa estruturada desde a década passada” e indica planejamento contínuo.
O MPF defendeu que o caso deveria tramitar na Justiça Federal de São Paulo, mas Toffoli manteve sob sua relatoria, argumentando que o esquema ultrapassa os limites iniciais da Compliance Zero e envolve o aproveitamento sistemático de falhas regulatórias.
A atual fase da operação concentra esforços na relação entre o Master e os fundos administrados pela Reag. Investigações sugerem uma cadeia de operações cruzadas, nas quais empresas repassavam direitos creditórios fictícios para FIDCs, que por sua vez inflavam artificialmente o patrimônio da instituição financeira.

O dinheiro circulava por múltiplas camadas de fundos e retornava ao próprio Master como aplicações em CDBs, criando a aparência de solidez e retroalimentando o ciclo fraudulento.
Ao menos 42 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em cinco estados, com bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens. Os alvos incluem Henrique Vorcaro, a empresária e pastora Natália Vorcaro Zettel e o advogado Fabiano Zettel. A PF apura os crimes de organização criminosa, gestão fraudulenta, manipulação de mercado e lavagem de capitais.
O colapso do Banco Master é considerado um dos maiores escândalos financeiros recentes. A instituição atraiu 1,6 milhão de investidores ao oferecer CDBs que pagavam até 140% do CDI, muito acima do padrão do mercado.
A estratégia gerou um passivo de curto prazo incompatível com o retorno das operações de longo prazo, aprofundando o desequilíbrio financeiro. O rombo estimado é de R$ 41 bilhões — cerca de um terço dos recursos do Fundo Garantidor de Créditos. O FGC garante que o ressarcimento começará na próxima semana.
Desde 2024, o Banco Central já alertava para sinais de crise de liquidez. A supervisão indicava que o banco não tinha recursos para honrar obrigações básicas, situação agravada pelas movimentações investigadas.