Deus e o diabo na urna: para voltar a governador, esquerda precisa entender, respeitar e se relacionar com evangélicos

Evangélicos protestam em frente ao Congresso: líderes mentiram a eles que a esquerda quer amordaçar os pastores

Os trechos da entrevista do Lula ao UOL sobre a relação do PT com o eleitorado evangélico merecem destaque. O partido fundado por ele ainda não encontrou o tom certo no diálogo com as lideranças da igreja e, principalmente, com a imensa massa de brasileiros que frequentam os cultos, seja num templo suntuoso como o de Edir Macedo ou em uma salinha nas favelas.

“O PT tem muita gente evangélica”, disse Lula.

“A Marina Silva (hoje na Rede) é evangélica, embora ela tenha começado a sua formação dentro de um convento católico, ela virou evangélica e era uma pessoa ligada à igreja evangélica no meu governo. A Benedita da Silva é um símbolo de uma figura petista evangélica. O Walter Pinheiro, que foi senador pelo PT da Bahia, era evangélico e uma figura muito atuante na igreja. Muita gente na periferia, que é do PT, é evangélica. Acho que o papel do Estado é ser laico, não ter uma posição religiosa. Mas o que o PT tem que entender é que essas pessoas estão na periferia, oferecendo às pessoas pobres uma saída espiritual, uma saída que mistura a fé, com o desemprego, com a economia”, acrescentou.

Lula disse ainda:

“As pessoas estão ilhadas na periferia, sem receber a figura do Estado. E recebem quem? De um lado, o traficante que está na periferia. De outro lado, a Igreja Evangélica, a Igreja Católica”.

O PT conta hoje com o apoio de um pastor, Daniel Elias, para tentar se aproximar (ou se reaproximar) do eleitorado evangélico no Rio de Janeiro. Benedita da Silva, como salientou Lula, também atua nessa área.

Mas todo esforço será em vão se o PT, e a esquerda de maneira geral, não compreender que o fiel vai a uma igreja porque quer, e encontra lá a principal recompensa: o resgate de sua autoestima.

Nada é mais equivocado do que imaginar que ele está sendo manipulado e que sai de uma igreja como uma galinha depenada com a Bíblia debaixo das asas.

Em geral, ele dá o dinheiro com gosto — e, também de maneira geral, deixa lá o dinheiro que não falta na casa dele.

Para o fiel, é o dinheiro mais bem empregado — em geral, 10% do que recebe. A ideia é que esse dinheiro não é seu, mas lhe foi dado por Deus e legítimo que devolva 10%. No caso de quem recebe um salário mínimo, 100 reais.

A ideia de que o dinheiro não lhe pertence pode ser revolucionária.

Por essa quantia, em qualquer dia que queira, encontrará um local onde há uma cadeira reservada para ele, ouve música e, às vezes, dança. Por isso, vai a esse templo com a sua melhor roupa.

É chamado pelo nome, recebe abraços e, quando fica doente, sempre recebe visita.

Muito diferente do que seria em qualquer clube que frequentasse — isso se o aceitassem.

Além disso, diante dos problemas, tem um ente a quem culpar, o diabo.

E nessa luta, conta com o aliado mais poderoso, Deus.

Hoje lhe dizem que o diabo está ao lado da esquerda. Por isso, é fácil entender por que estão votando nos candidatos da direita.

É a maior fake news deste tempo. Mas alguém precisa contar para ele.

Mas quem se dispuser a fazer isso terá que pedir licença e, respeitando sua fé, dizer que as propostas da esquerda estão muito mais de acordo com o que está escrito na Bíblia do que fazem os políticos de direita.

Mas não é só falar de poder aquisitivo e de como o PT melhorou a vida das pessoas. Também não é fingir que se converteu e fingir que ora — o evangélico, em geral, conhece o padrão bíblico e sabe quando alguém está falando algo inconsistente.

Na década de 80, quando era candidato a vice-governador de São Paulo pelo PMDB, Almino Afonso foi a uma igreja evangélica e tentou se aprofundar no tema da fé. Fez feio.

“Nós que cremos sabemos que todos os caminhos levam a Deus”, disse.

Silêncio total no público. Era uma Assembleia de Deus. Para os evangélicos, e também para os católicos, só há um caminho que leva a Deus, Cristo. Ainda que Almino Afonso não acreditasse nisso, seria melhor que não tocasse no assunto.

Não precisava tentar se passar por entendido da Bíblia. Bastava dizer que admirava e respeitava a fé daquele povo. Também não adiantaria se falasse apenas das coisas concretas e de propostas de governo.

Parafraseando os Titãs, o evangélico não quer só comida, ele quer saída para qualquer parte.

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