“Deus, Pátria e Família”: com Bolsonaro, integralismo recupera fôlego, mas não é mais a força que teve simpatia de Vinícius e Dom Hélder

Por Walter Niyama

Membros famosos

É interessante notar que o movimento integralista, que no seu auge teve um número expressivo de membros reunidos em torno da Associação Integralista Brasileira (AIB), também contou com figuras conhecidas em outras áreas. Em capítulos anteriores desta série, foram citados Gustavo Barroso, membro da Academia Brasileira de Letras, e Miguel Reale, que também foi da ABL e que também era professor titular de Filosofia do Direito na USP (onde foi inclusive reitor).

Hélio Gracie, um dos difusores do Jiu-Jitsu no país, segundo Leandro Pereira Gonçalves, em entrevista para o portal UOL, era membro ativo do núcleo de Ipanema dos integralistas. Em sua pesquisa, ele encontrou a foto de Hélio no jornal do grupo “A Offensiva”. Inclusive há uma em que ele veste o uniforme verde-oliva e o símbolo do movimento (sigma).

Capa de uma das edições do jornal A Offensiva. Imagem: Reprodução.

Na mesma reportagem do UOL, Reila Gracie, sobrinha de Hélio, disse que a filiação de seu tio, falecido em 2009, se deu por um “modismo da época de grupos mais conservadores” e destacou ainda a filiação dele ao PSD nos anos 1950, o partido de Juscelino Kubitschek. Além do apoio dado a Leonel Brizola durante a Ditadura Militar.

Ainda no texto, o historiador José Tufy Carius disse que a filiação de Hélio pode levar alguém a “ficar tentado a afirmar que ele estava apenas se colocando no meio de uma tendência política passageira”, mas destacou que, levando em conta a “personalidade belicosa de Hélio e suas transgressões do passado”, sua filiação ao partido que valorizada juventude, virilidade e agressividade masculina não chega a ser uma surpresa.

Nos anos 1930, a AIB ganhou a simpatia do compositor e poeta Vinicius de Moraes, um dos pais da Bossa Nova. Ano passado (2019) inclusive foi a leilão uma coleção encadernada da revista Anauê, que o movimento produziu entre 1935 e 1937. Na edição 15, há um poema Moraes que era publicado pela primeira vez.

Vinicius, como se pode supor, aderiu a ideias mais progressistas com o tempo e se arrependeu de sua aproximação com o integralismo. Em uma entrevista, ele falou sobre essa virada na sua vida que aconteceu graças a uma viagem feita com o escritor americano Waldo Frank: “Saí um homem de direita e voltei um homem de esquerda. Foi o fato de ter visto a realidade brasileira, principalmente o Nordeste e o Norte”.

Um nome que pode surpreender ainda mais é o de Dom Helder Câmara, bispo que combateu ditadura e que em 2017, por lei, foi declarado Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos. Um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), foi um membro entusiasta da AIB. Mas, antes mesmo dos anos 1940, se afastou do movimento e posteriormente chamaria esse momento de sua vida como “Um erro de juventude”.

O Instituto Vladimir Herzog possui em seu site um texto que fala um pouco sobre essa passagem na vida de Dom Helder Câmara, explicando que seu afastamento ocorreu quando percebeu que o integralismo apoiava regimes como o fascismo e o nazismo e que, quando pessoas importantes abandonavam o grupo, eram perseguidas e algumas mortas. O artigo conta que o indicado ao Nobel da Paz em 1972 precisou fugir por conta de seu desligamento.

Violência

Sobre outros casos de violência em que o nome “integralista” é citado, o professor de História da Universidade Federal de Juiz de Fora, Leandro Pereira Gonçalves, explica que, apesar do discurso ser baseado no cristianismo, a AIB também tinha milícias fortemente armadas. Um episódio que mostra isso bem é o assalto ao Palácio Guanabara.

“Não é uma atividade frequente essa de violência, mas ela foi colocada em prática em 38, e também em outros momentos. Nos anos 80, quando o integralismo passava por reestruturação, houve um comício na Praça da Sé no dia 1o. de maio, com a CUT e outros grupos, e os integralistas os atacaram. Vários membros foram presos. Foi uma atividade muito forte naquele momento, porque muitos nem sabiam que o Integralismo ainda existia”, afirma Gonçalves.

Para o professor, o episódio do ataque ao Porta dos Fundos, no fim do ano passado, não pode ser considerado um caso de “um indivíduo louco que decidiu fazer isso”. Gonçalves ressalva que Eduardo Fauzi não pode ser considerado culpado, já que não confessou a autoria nem foi condenado. Ele teve a prisão preventiva decretada e estaria hoje na Rússia.

Na hipótese de que ele seja considerado culpado, é preciso considerar que Fauzi possui uma formação sólida no Integralismo, histórico de militância, e é responsável por um dos principais grupos do neointegralismo, que é ACCALE (Associação Cívica e Cultural Arcy Lopes Estrella). Movimento feito em homenagem a um militante muito importante pós-Plínio e de viés mais radical.

A Accale divulgou nota em que admite que Fauzi foi participante ativo do movimento, mas não seu responsável.

O professor Gonçalves, por sua vez, afirma que é precoce considerar que o ataque ao Porta dos Fundos seja um caso isolado ou fruto da iniciativa pessoal. O documento toma sempre o cuidado de ressalta que ainda não há condenação nem confissão.

Em vídeo, bandeira com mensagem antifascista é queimada por integralistas. Foto: Reprodução.

Vale lembrar também que o grupo que reivindicou o ataque ao Porta dos Fundos, o Comando de Insurgência Popular Nacionalista, pertencente à Família Integralista Brasileira, em 2018 roubou bandeiras com mensagens contra o fascismo de diretórios acadêmicos da UniRio, no campus de Botafogo, e as queimaram em um vídeo que circulou nas redes sociais.

Fragmentado

Gonçalves destaca ainda que, desde a morte de Salgado, não existe uma liderança, mas uma briga pela liderança. “Nos anos 1980, principalmente 1990, existiu uma série de atividades para reestruturar o movimento. Só que não existia uma convergência entre todos os militantes. O que existia era uma mescla entre militantes históricos que passaram pela AIB, PRP, Ditadura, e os jovens que estavam entrando no movimento”.

O professor de História Contemporânea da UFJF, Odilon Caldeira Neto, destaca ainda que essa divisão se deu por uma falta de “herdeiro político” para Plínio Salgado. O que aconteceu justamente por ser uma liderança que se formou politicamente na era do fascismo, onde o culto a personalidade era uma questão primordial. Plinio fez questão, por meio da AIB, de criar uma idolatria em torno da sua imagem e inviabilizou que o capital politico integralista fosse compartilhado com os demais líderes:

“É necessário lembrar que após a volta de Plínio do exílio, o momento era de declínio político do integralismo, então para ele era interessante se mostrar como a única liderança para assim ter algum capital político, seja para eleições ou movimentação golpista. Além disso, a filha dele não quis entrar para a vida política”.

Em 2004, foi promovido um congresso entre os diversos grupos espalhados no país para reorganizar a AIB. A FIB teria inclusive surgido após esse congresso.

Professor Gonçalves explica que a FIB defende uma interpretação fiel da doutrina, seguindo de forma inquestionável a palavra de Salgado. E que eles têm uma relação muito próxima com movimentos e partidos. No passado, os integralistas teriam entrado no PRONA para terem uma representação político-partidária.

O Prona não chegou a ser legenda de Jair Bolsonaro, porém ele era muito próximo de Eneas Carneiro, o fundador do partido, já falecido, e chegou a cogitar filiar à agremiação extremista.

Levy Fidelix (PRTB) segura um livro sobre Plínio Salgado ao lado do presidente nacional da FIB, Victor Emanuel Viela Barbuy. Em 2018, a FIB apoiou a candidatura de Fidelix a deputado federal. Foto: Reprodução/Facebook.

“Eles buscaram relações e possuem com alguns outros partidos como o PRTB do Levy Fidelix, que diz publicamente ser um admirador de Plínio Salgado. PRTB, partido do nosso vice-presidente, general Hamilton Mourão. Tem uma pessoa muito próxima aos integralistas que é o deputado Carlos Jordi, do PSL, enfim, há uma serie de aspectos que promovem essa relação de proximidade da FIB”, acrescenta Gonçalves. A simpatia do de Jordi com o Integralismo foi revelada pelo jornalista Chico Alves, em sua coluna no UOL.

O professor relembra ainda que hoje o integralismo está pulverizado em grupos neofascistas e neointegralistas, e há uma proximidade muito forte com grupos neofascistas internacionais da Europa e dos EUA: “A ACCALE é um grupo com dialogo muito próximo com a FIB, dois grupos, mas com uma mesma identidade basicamente, só que a ACCALE tem um discurso mais, talvez, radical em alguns aspectos”.

O professor Odilon explica ainda que essas relações com grupos internacionais, por meio da internet, estão dentro da questão da fragmentação: “Na medida em que são grupos pequenos, eles precisam estabelecer relações com os seus próximos, ou seja, grupos neofacistas, extrema-direita, no Brasil, mas também na América Latina e na Europa, pois eles têm que ser legitimados do ponto de vista desse campo neofascista internacional”.

Governo Bolsonaro

Sigla de Bolsonaro usa o mesmo lema da AIB “Deus, Pátria e Família”.

Nota: O depoimento sobre o governo Bolsonaro foi feito no dia 24 de janeiro.

Apesar de terem algumas críticas e dizerem que ainda é cedo para avaliar a gestão do presidente Jair Bolsonaro, Lucas Carvalho diz que o governo está aquém, mas que, se fosse classificá-lo, diria como “regular”.

Sobre Paulo Guedes, eles colocam o discurso liberal dele como “infantil”, dizendo que ele veio graças à “modinha liberal”, mas que tais falas não vão prosperar, pois ele não poderá fazer muita coisa no governo.

Lucas fala ainda que Guedes não é tão liberal como diz, citando a questão do cheque especial e que a FIB defende que prevaleça o interesse nacional: “Vender uma estatal de energia para o estado chinês é uma aberração”.

A respeito da cultura, eles criticam os comitês técnicos de avaliação de projetos culturais, o que, para eles, representa um “tribunal ideológico”.

Ainda sobre o momento atual do país, professor Odilon afirma: “É interessante frisar que, em momentos de radicalização politica, como no Brasil hoje, é bastante provável e propicio que os grupelhos integralistas se tornem ainda mais radicais para disputar espaço e fazer valer as suas bandeiras e tentar instalar essas ideias no campo politico majoritário”.

Bolsonaro com Eneas Carneiro, fundador do Prona, partido abrigou integralistas e ideias integralistas

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Esta reportagem encerra a série de quatro reportagens sobre o integralismo, movimento que voltou ao noticiário depois do ataque ao Porta dos Fundos, no fim do ano passado.

Reportagem atualizada em 21/08/2020.

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