Deve haver coisas mais importantes na agenda feminista do que lutar contra o “fiu fiu”

Atualizado em 15 de setembro de 2013 às 20:04

assobio

Vivemos no tempo de encontrar polêmica onde antes ninguém percebia nada. Os clássicos da literatura infantil estão sendo revistos para ver se encontram discriminação lá dentro. Você abre um livro de Monteiro Lobato e encontra cada barbaridade! Não está longe o dia em que abrirão um pacote de Negresco e começarão a se perguntar se o recheio branco é um racismo velado. No mundo onde já encontraram racismo na brancura do papel sulfite, não duvido de mais nada. A discriminação está nos detalhes, só não enxerga quem não é iluminado.

As definições de machismo foram atualizadas. E algumas blogueiras feministas têm um papel importante em denunciar os abusos do patriarcado. Esta semana, por exemplo, descobri que chamar uma mulher desconhecida de linda é assédio. As meninas da minha timeline que me desculpem, mas se alguma vez eu as chamei de linda quando vocês mudaram a foto do avatar, juro que eu estava apenas tentando elogiá-las.

Depois a gente vira gay porque não sabe direito o jeito certo de lidar com uma mulher. Comigo foi assim. De tanto falarem que com mulher não se pode falar isso ou aquilo, desisti de me aproximar delas e fui procurar um gênero com que eu tinha mais familiaridade.

A última, para que não viu, é uma campanha contra o “fiu-fiu”.

Se algumas mulheres concordam que “fiu-fiu” é assédio, quem sou eu para argumentar. Mas eu tinha a impressão de que a agenda feminista tivesse coisa mais importante com que se preocupar.

Você cria toda uma campanha contra o flerte e metade das letras de MPB perde o sentido – de Noel Rosa a Chico Buarque. Não escapa nem Emicida, cuja música Trepadeira, do último disco, indignou várias feministas. Deve ser a primeira vez na história em que uma geração de jovens se sente mais ofendida com uma letra de música do que uma geração de velhos. E isso porque estamos vivendo numa época em que o funk e o samba estão separados apenas por uma parede sem reboco.

Vão me dizer que o “fiu-fiu” não é ingênuo e que é apenas uma peça de algo muito mais complexo – sempre tem algo muito mais complexo por trás, perceba. Que no contexto em que vivemos apenas o homem está autorizado a flertar. Que ele é a figura opressora, etc.

Sim, sei de tudo isso. E concordo até certo ponto (apesar de achar que em todo flerte a mulher seja a figura mais importante, mas tudo bem).

O homem é por natureza um paspalhão. Na maioria das vezes em que faz um “fiu-fiu”, ele sabe que não vai dar em nada. O “fiu-fiu” é uma versão atual e porca do gesto de tirar o chapéu quando uma mulher bonita passa por você. É cretino, é vulgar – eu mesmo uso o “fiu-fiu” apenas para chamar o meu cachorro –, mas não dá para dizer que é assédio, motivo para ir até a delegacia, por exemplo. Entre o “fiu-fiu” e o “ô lá em casa” existe uma porção de cantadas imbecis. Entre o “gostosa!” e passar a mão, são várias páginas a mais no processo.

Então por que o homem não tenta conversar com a mulher em vez de fazer “fiu-fiu”? – ouço uma voz familiar e longínqua.

Se assobiam é porque lhes falta coragem, ou porque lhes faltam palavras, porque estão de passagem ou simplesmente porque são babacas mesmo.

Num mundo onde não há flerte, a mulher levaria muito mais tempo até descobrir que o homem na frente dela é babaca, sendo obrigada a (o horror!) conversar para descobrir quem ele é. Com o “fiu-fiu”, a piscadela e a cantada ridícula, o processo é muito mais rápido e a mulher pode dispensar o sujeito logo de cara.

Mas hoje, infelizmente, querem enxergar em tudo uma intenção que revelaria os podres do homem. Por essa lógica seria razoável uma mulher fazer um boletim de ocorrência ao ganhar uma flor de um desconhecido na rua. A intenção do homem que dá uma flor e do auxiliar de obra que fala uma baixaria, como sabemos, não é lá muito diferente.

É verdade que há motivos para lutar contra os abusos. Ninguém aqui discorda disso. Mas o que eu vi por aí foram ataques a qualquer um que resolvesse botar a cabeça para fora apenas para dizer que a linha que separa o elogio do assédio não deveria estar onde estão propondo que ela esteja. No final, a demonstração de intolerância partiu justamente de quem começou pregando a tolerância. E o homem que abusa, o personagem central da história, ficou em segundo plano. A discussão poderia ser mais saudável. Se pelo menos conseguisse chegar nele. É uma pena que o homem selvagem não tem o hábito de ler.