Dia da mulher: 10 ideias de presentes possíveis em 2026. Por Nathalí

Atualizado em 8 de março de 2026 às 12:04
Mulher protesta pelo fim do feminicídio. Foto: Ilustração

Pensei em uma homenagem pra nós, mulheres, nesse dia 8 de março. Não há homenagem possível. Somos guerreiras? Sim, porque a sociedade patriarcal transforma nossa vida num inferno todos os dias e a gente só queria viver em paz. Somos doces? Não, e nem temos obrigação. Merecemos presentes e congratulações? Sim, mas ainda não nos dão o básico, como o direito de viver e dispor de nossos corpos. Pensando em presentes possíveis em pleno 2026, o texto virou quase uma piada.

1. Nos deixem vivas

Quatro mulheres assassinadas por dia no Brasil por feminicídio – e o fenômeno é mundial. Não precisa muito: não mate a sua ex porque “não aceita o fim do relacionamento”. Não esfaqueie uma mulher porque ela não aceitou namorar com você. Não jogue o corpo dela aos cachorros pra não pagar pensão pros seus filhos.

2. Não nos estuprem

Estupro não é só quando você dilacera nossas bucetas em uma rua escura ou invade nossas casas pra isso. Se ela é sua namorada ou ficante e você a força a transar com você, isso é estupro. Se ela quer transar com você, mas muda de ideia e pede pra parar mas você continua, é estupro. Tudo depois do não é estupro. Contem isso aos nossos meninos e punam os estupradores com rigor. Está de bom tamanho.

3. Deixem as nossas meninas em paz

87,7% das vítimas de estupro de vulnerável (menores de 14 anos) são meninas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Não obriguem uma criança a parir de seu estuprador – ainda hoje é preciso dizer que estuprador não é pai. Não diga que uma criança “sabia o que estava fazendo” quando ela for estuprada por um homem adulto. Não chame de “relacionamentos” os abusos que homens adultos cometem contra meninas adolescentes, em geral facilmente manipuláveis. A gente jura que não é difícil.

4. Punam comportamentos inadequados no ambiente comparativo

Neste dia 8, que tal esquecer o bombom na mesa das funcionárias com um bilhetinho mequetrefe e ensinar aos seus funcionários a não assediarem suas colegas de trabalho? Basta dizer o mínimo: nossos corpos não estão disponíveis para nossos superiores no ambiente de trabalho, nem pra ninguém. Ninguém aguenta mais sair pra trabalhar e ter que lidar com o Jurandir casado com três filhos assediando a estagiária.

5. Eduquem nossos meninos

Em vez de ensinarem às nossas meninas como não serem estupradas, ensinem aos meninos como não estuprar. Isso passa por educá-los para respeitarem mulheres em todos os sentidos, sejam elas conhecidas ou não, e ensinarem-lhes sobre patriarcado e cultura do estupro.

Manifestante em ato no dia Internacional das Mulheres. Foto: Reprodução

6. Não nos escravizem

A divisão justa do trabalho doméstico é urgente. Nós ainda enfrentamos jornada tripla e perdemos oportunidades de trabalho e estudos porque ainda acham que limpar o próprio ambiente, cozinhar e cuidar de si depende do que você tem entre as pernas.

7. Nos paguem o mesmo que pagam aos homens

Sim, a discrepância salarial persiste. Segundo a Agência GOV, No Brasil, mulheres recebem em média cerca de 20,9% menos que os homens, mesmo trabalhando nos mesmos estabelecimentos formais analisados em mais de 19 milhões de empregos.
Paguem um salário justo pelo nosso trabalho.

8. Não nos assediem

Na rua, em casa, no carnaval, no transporte público… Nossos corpos não são um convite. Não importa a roupa que estejamos vestindo, nosso comportamento em público ou o juízo que você faz de nós. Nenhuma mulher merece ser assediada e tolerar esse crime em pleno 2026 é no mínimo um insulto.

9. Pautem o aborto

Não é possível que mulheres ainda precisem morrer por não quererem ser mães. Em um país fundamentalista como o Brasil, lutem para que a pauta da descriminalização do aborto seja priorizada. Não somos obrigadas a parir.

10. Leiam mulheres

Nos enxerguem para além da nossa “utilidade sexual”. Leia mulheres, assista mulheres, admire mulheres. Nosso trabalho diz muito sobre o que nós precisamos dizer. Basta prestar atenção.

Não adianta nos violentar o ano inteiro e oferecer flores no dia 8 de março. Nós não precisamos dos seus chocolates: apenas nos tratem como gente.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.