Dia da mulher: o que nos ensina uma feminista não-branca na Família Real. Por Nathalí

Desde que Rachel  Meghan Markle tornou-se a Duquesa de Sussex, graças ao seu casamento com o Príncipe Harry, a Família Real Britânica vem ganhando manchetes na mídia mundial por desentendimentos com a ex-atriz norte-americana, que culminaram no rompimento oficial entre o casal Meghan e Harry e a família real.

Em janeiro de 2020, eles anunciaram a renúncia de suas funções como membros “senior” da família real britânica. Meghan e o marido não representam mais a rainha Isabel II do Reino Unido, e não usam mais o tratamento de “Sua Alteza Real”, quebrando séculos de tradição monarquista.

É verdade que Meghan parece nunca ter sido muito bem recebida na realeza, e o fato de ela ser uma plebeia de fenótipo latino na família real seria o suficiente para justificar a falta de receptividade, mas, como se não bastasse, a Duquesa é feminista.

No dia de seu casamento com Harry, ela decidiu caminhar sozinha até o altar, não prometer obediência ao seu marido e continuar trabalhando. Pra nós, que estamos no Século XXI, apenas a expressão comum de uma mulher de seu tempo; para as tradição reais, uma afronta.

Muitas foram as ocasiões em que Meghan quebrou as tradições reais, e nunca fez questão de esconder sua posição: à imprensa, chegou a dizer que “não quer ser um enfeite após seu casamento”, e em entrevista recente à Oprah Winfrey, fez revelações no mínimo embaraçosas sobre a família real, dando ensejo a uma polêmica racial (inacreditavelmente) sem precedentes na história da monarquia britânica.

“Quando eu estava grávida, começaram as conversas. Ele (Archie) não terá segurança. Ele não receberá um título e também preocupações e conversas sobre como seria a cor de sua pele quando ele nascesse”

Não é de se surpreender que a monarquia britânica não deseje um herdeiro de pele escura – ainda que apenas um pouco mais escura – para o trono. O que para nós é “herança colonial”, é para eles ainda uma cultura presente e flagrante – que o diga a Duquesa Meghan, que teve pensamentos suicidas no período de (des) adaptação à nova vida pós-casamento.

A história de Meghan Markle na Família real nos interessa não apenas porque representa uma rebeldia sem precedentes em uma monarquia tão caquética quanto sua rainha, mas porque é uma história de silenciamento.

“ Eu sempre falei a respeito dos direitos das mulheres. Do direito de poder falar. E a ironia é que, nos últimos 4 anos, eu é que fui silenciada. Eu fiz tudo o que me mandaram fazer. Eles disseram que iam me proteger. Meus amigos me ligavam e diziam: ‘Isso é sério. Isso é grave’. E eu dizia: ‘Não se preocupem. Eles vão me proteger’. Depois que eu casei, comecei a perceber que eu não estava sendo protegida. Eles estavam dispostos a mentir para proteger outras pessoas, mas não estavam dispostos a dizer a verdade para proteger a mim e a meu marido”, afirmou a Duquesa.

É fato que o silenciamento de Meghan nos diz muito, e o confronto entre uma voz feminista e uma tradição monarquista patriarcal secular é, no mínimo, uma história que interessa a todas nós, mulheres, sobretudo neste dia histórico de luta.

O que, afinal, uma estrangeira de fenótipo latino, feminista e insubmissa “infiltrada” na Família Real nos ensina neste oito de março?

Que ainda há muitas estruturas caquéticas a serem derrubadas, na monarquia e na república, no primeiro e terceiro mundo, em qualquer lugar ou cultura, e que se é possível que uma voz feminista penetre uma monarquia – aos trancos e barrancos, é verdade – tudo é possível para nós.

Desafiar o status quo – que, como sabemos e temos dito, é masculino – exige coragem. Até mesmo para uma Duquesa.

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