Dia da Mulher: respeito não é presente, é direito. Por Nathalí Macedo

Imploramos pelo mínimo todos os dias do ano:  parem de nos matar. Tirem seus rosários de nossos ovários. Parem de desfigurar nossos rostos, de nos queimar vivas, de nos atirar do alto de prédios, de nos culpar quando somos estupradas, parem de ver nossos corpos como parques de diversão ou espólios de guerra.

Nossos apelos parecem trilha sonora para as barbaridades que continuam sendo noticiadas todos os dias. Só este ano, mais de dez mil mulheres foram estupradas no Brasil – fora as que não denunciam por medo, ou são desencorajadas por um judiciário canalha. Também este ano, os registros de feminicídios aumentaram, apesar de terem diminuído os registros de homicídios.

A impressão que tenho é de que nossos esforços didáticos são inúteis diante de uma sociedade que ainda não consegue nos oferecer o mínimo: escuta.

Quando dizemos “nesse oito de março, não dê flores, dê respeito!, parece que precisamos de um dia especial para cordialmente solicitarmos o que é nosso por direito. Respeito não é presente: é direito de todas as mulheres e dever de todo ser humano decente.

Presente é convidá-la para jantar o seu prato preferido. Passar o dia com ela numa praia de azul tão infinito quanto a sua força. Aprender a tocar aquela música que ela adora. Comprar-lhe uma roupa nova, um vinho, ingressos pro cinema.

Aliás, pode dar flores no oito de março, sim. Não está proibido, que eu saiba. Mas em todos os outros dias do ano, trate-nos como seres humanos.

Temos solicitado cordialmente há décadas isso que ninguém deveria hesitar em nos oferecer: o direito de existirmos, de permanecermos vivas e inteiras. Se, para nós, nada vem de graça – a não ser os buquês do nosso dia internacional – levantamos e vamos buscar.

Exigimos, quando necessário. Tomamos à força.

Respeitar ou não respeitar mulheres não é mais uma questão de escolha: nós somos o futuro, e não há outro caminho. Mais do que maioria numérica, somos a potência vital do universo. Nossos ventres guardam a vida, e ninguém pode chegar a este planeta a não ser dentro de uma de nós.

E sabe o melhor?

A gente se deu conta disso.

E foi quando entendemos que não precisamos implorar pelo óbvio que vocês passaram a nos verem em todos os espaços (e aviso que continuaremos ocupando-os).

Toda vez que matarem, estuprarem, vandalizarem uma de nós, brotarão outras centenas de milhares, fazendo um escândalo. Toda vez que tentarem culpar uma mulher pelo mau-caratismo de um homem adúltero, estaremos lá para dizer que a culpa da traição é de quem trai. Cuspiremos em todas as manchetes que tentarem nos culpar quando formos vítimas e continuaremos em marcha até que todas sejamos livres.

O respeito que queremos não será solicitado no dia oito de março ou em qualquer outro dia: exigiremos.

Não há de ser fácil, mas um dia eles vão aprender.

Nem que seja na marra.

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