Dia de refletir, de sofrer e de torcer

A QUEM APELAR?

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Dia de refletirmos um pouco sobre o que aconteceu ontem em Belo Horizonte. Quem cresce no Brasil fica esperto para uma série de regras de sobrevivência urbana: você lê a intenção suspeita de alguém que atravessa a rua na sua direção, você não frequenta determinadas áreas da cidade em determinadas horas do dia, você não abre o vidro no carro no cruzamento. Mas como antever uma ameaça que vem da própria cidade, que é feita de vigas e de concreto? Como deixar de confiar num viaduto ou num muro ou num poste?

Lembro de uma marquise que desabou sobre várias pessoas, no centro de Porto Alegre, no fim dos anos 80. Só então lembramos que marquises de concreto, que pairam sobre calçadas lotadas de transeuntes, precisam ser reformadas e fiscalizadas. Quem não lembra das centenas de mortos na boate Kiss? Só aí nos demos conta de que há medidas básicas para prevenir e enfrentar situações de emergência em lugares públicos que precisam ser seguidas e exigidas. Quais serão as próximas vítima? E de onde virá a próxima ameaça? Elevadores assassinos? Shoppings que explodem? Estacionamentos que desabam?

É fundamental refletirmos sobre a diferença entre acidente e negligência, entre que é uma tragédia fortuita e o que é descaso, imperícia, inépcia, má fé. Catástrofe é o que não podemos evitar. Prédios e pontes desabando, deslizamento de terra e enchentes, quando acontecem com regularidade, merecem outro nome. É homicídio. Para que vidas deixam de ser destruídas dessa maneira absolutamente inaceitável, é preciso que passemos a destruir algumas carreiras e, talvez, algumas empresas, nesse país.

O BRASIL POR AÍ

Eis a nossa contradição: estamos fazendo uma Copa muito boa – só que no fio da navalha, meio de improviso, em cima de obras inacabadas ou muito mal acabadas.

De todo modo, mesmo com os tapumes, os puxadinhos e os desabamentos, o Brasil, ao que parece, já ganhou essa Copa em termos de exposição internacional.

O FREE (Football Research in na Enlarged Europe), na matéria The World Cup 2014 in Brazil: better organised than the Olympics in London 2012?, ou “A Copa do Mundo de 2014 no Brasil: melhor organizada que os Jogos Olímpicos de Londres em 2012?”, de David Ranc, diz que “há um gap entre a realidade e a percepção. Sempre que um evento é organizado num país ao Sul do mundo, o discurso, e a memória, é de fiascos em potencial, que geralmente não acontecem. E sempre que um evento é organizado num país do Hemifério Norte, o discurso, e a memória, é de sucesso, mesmo quando há fiascos. Podemos chamar isso de ‘orientalizaçao’ e dizer que num mundo em que a divisão Leste/Oeste foi substituída nos anos 90 por uma divisão Norte/Sul, esse é o resultado de uma visão distorcida da mídia no Norte/Oeste em relação aos países do bloco Leste/Sul. Deixemos isso bem claro: esse é um discurso xenófobo e até mesmo racista”.

Jogos Olímpicos de Londres
Jogos Olímpicos de Londres

O Al Jazeera também faz crer que o Brasil, em termos de construção de imagem e de reversão de expectativas, já é o grande campeão dessa Copa. Diz a matéria Brazilians, The biggest winner – As teams slug it out to win the football World Cup, the winner so far has been the hosts: the Brazilian people, ou “Brasileiros, o grande vencedor – Enquanto os times se esforçam para ganhar a Copa do Mundo, o vencedor até aqui são os anfitriões: o povo brasileiro”: “Qualquer país pode construir um estádio ou por policiais nas ruas, mas nem todo país tem brasileiros para encher a festa, e os locais sabem disso. Durante todas as partidas desse torneio, em algum momento do jogo, a torcida brasileira começa a cantar em uníssono uma canção que diz ‘Eu sou brasileiro/Com muito orgulho/Com muito amor’. Talvez esse seja um jeito do Brasil dizer em uníssono para o mundo: ‘Vocês estão curtindo a Copa? Estão gostando do nosso país? Nós o construímos, é nosso, mas, ei, mundo, seja bem vindo!’ Não importa o que aconteça em campo, continue cantando, Brasil. Vocês, brasileiros, escreveram a letra, o resto do mundo está seguindo o seu ritmo”.

E na opinião de jornalistas estrangeiros ouvidos pelo Diário Catarinense, o melhor da Copa do Mundo no Brasil são os estádios e a hospitalidade. As piores notas foram para os preços brasileiros e para a mobilidade urbana. Eis a matéria: “Jornalistas estrangeiros dão nota 8,5 para a Copa do Mundo no Brasil – Visitantes consideram hospitalidade e aeroportos os pontos altos e dão nota baixa aos preços”.

SOBRE FUTEBOL

Na hipótese de uma semifinal contra Alemanha: a zaga alemã tem dois caras de 1,90m e 90kg. Ruim para Fred, mas Neymar, Hulk e Bernard passarão voando em alta velocidade. E com dois volantes marcando bem Lahm e Schweinsteiger, a Alemanha perderá muito.

Na hipótese de uma final contra a Argentina: a defesa deles é fraca, especialmente pelo lado direito, onde Neymar e Marcelo podem deitar e rolar. Marcando a articulação de Mascherano na saída de bola, e cercando bem Messi, e a Argentina sofrerá muito.

Mas daqui a pouco tem a Colômbia de James e Cuadrado. Vambora.

James e Cuadrado
James e Cuadrado

CONCLAMAÇÃO À TORCIDA

Dia de torcer muito pela Seleção. E de compreender que a Copa pode acabar hoje para a Seleção mas não para o Brasil. Dia de torcer como uma torcida de verdade, que empurra o time, e não como uma torcida que precisa ser empurrada pelo time.

Torcedor brasileiro, especialmente o da Seleção e o de Copa, só gosta de jogo fácil. Não vê graça em ganhar jogo difícil, que exija luta e superação e “guts” para caminhar a “extra mile”. Qualquer jogo que não seja jogado só no ataque, com jogadas mágicas fluindo ininterruptamente, qualquer aspereza imposta pelo adversário, nos deprime. Aplaudimos e jogamos confete quando tudo vai bem e só há a alegrias na tela. E nos escondemos e trocamos o apoio pelo achincalhe ao primeiro sinal de dificuldade.

Aviso: hoje vai ser épico, vai ser duro, vai ser renhido, em Israel estão dizendo que esse jogo será do Brasil A contra o Brasil B. Prepare-se para apoiar, incondicionalmente. Como fizeram os argentinos contra o Suíça. Até o fim. Ou então faça a todos o favor de ir se entreter com outra coisa.

RECADO PARA O CAPITÃO

TS e DL
TS e DL

Thiago Silva é o melhor zagueiro do mundo. Capitão da Seleção Brasileira. Um número 3 com lugar garantido em qualquer time do mundo. E um dos melhores defensores que já nasceram por aqui, em todos os tempos. É só isso que há para dizer sobre ele. É só isso que ele precisa ouvir e acreditar. Um abraço, capitão. Vai com tudo. Tou contigo. Estamos.