Diário de Melgaço, a cidade com o menor IDH do Brasil: parte 1

Maribel Herrera e Maribel Saborit
Maribel Herrera e Maribel Saborit

Abaixo, o primeiro relato de Alice Riff, a documentarista recrutada pelo DCM para contar como é a vida em Melgaço, no Pará, a cidade com menor IDH do Brasil. Recentemente, Melgaço recebeu quatro médicos cubanos, o que ampliou extraordinariamente o acesso à saúde na cidade.

Antes, dois médicos se revezavam na cidade — cada um deles ficava 15 dias — e era isso tudo com que os 25 000 habitantes podiam contar para serviços de saúde.

É o primeiro projeto financiado pelos leitores — o chamado ‘crowdfunding’, um fenômeno da mídia digital.

Em sua estada em Melgaço, Alice manterá um diário no qual contará o seu dia. Depois, ao retornar a São Paulo, ela produzirá um documentário sobre sua experiência numa cidade invisível para os brasileiros. Ela está em Melgaço acompanhada de Thiago Carvalhaes, na câmara, e de Thiago de Luccia, médico de familia e comunidade.

Chegamos a Melgaço no domingo, depois de 12 horas de barco de Belém. Do caminho do porto para o hotel, casinhas de madeira coloridas, crianças brincando nas ruas, motos pra lá e pra cá: vê-se que a cidade é pequena e bastante pobre.

Dos 25.000 habitantes de Melgaço, apenas 5 mil vivem na cidade. Os outros 20 mil vivem na zona rural, onde o acesso à saúde e à educação é ainda menor.

As esquinas são depósito de lixo e o esgoto corre na frente das casas.

No domingo visitamos o Hospital de Melgaço, e conversamos com a enfermeira responsável, uma jovem paulista chamada Carol, que está há 8 meses no hospital.

Ela nos contou que, até a chegada das médicas cubanas, dois médicos se revezavam entre o Hospital e a UBS (Unidade Básica de Saúde).

Cada um ficava 15 dias do mês na cidade. Por muitos anos a cidade viveu com um médico para atender toda a população.

Com a chegada das cubanas, há quatro meses, os médicos brasileiros ficam só no hospital, e as cubanas realizam atenção básica na UBS.

Há dois meses, mais um casal de cubanos chegou a Melgaço, e então hoje a cidade tem dois médicos no hospital e quatro cubanos na UBS.

Alice e Thiago Carvalhaes em Melgaço
Alice e Thiago Carvalhaes em Melgaço

Na segunda-feira acordamos e fomos à UBS para nos encontrar com os cubanos.
Eram 8 da manhã e o posto já estava cheio de gente, principalmente mulheres e crianças.

Fomos recepcionados por Rita, gerente da UBS, que nos apresentou o estabelecimento. É uma casa térrea, não muito grande. O posto está em reforma, então muitas das instalações são improvisadas.

Mesmo em reforma, o que vimos não foi nada assustador. As duas salas de atendimento têm ar condicionado e boa infraestrutura. A sala de vacinação é bem equipada: possui geladeiras com vacinas, e a farmácia é bem suprida de medicamentos.

Tanto os pacientes como que conversamos quanto os médicos e agentes de saúde disseram que não costumam faltar medicamentos.

Suzana Silva, 15 anos, gravida de 8 meses aguarda para fazer prenatal
Suzana Silva, 15 anos, grávida de 8 meses aguarda para fazer pre-natal

Acompanhamos alguns atendimentos de duas médicas cubanas, Maribel Herrera e Maribel Saborit.

A principal queixa que escutamos dos pacientes durante a manhã foi diarreia. Outra boa parte dos atendimentos eram pré-natal para gestantes.

É notável o número de mulheres grávidas que se vêem pela cidade.

À tarde, visitamos as médicas que estão aqui há mais tempo e conversamos sobre a experiência que têm tido, os principais problemas de saúde de Melgaço, e as estratégias para cuidar deles.

Depois ainda fizemos uma visita a uma família, e ouvimos mais sobre os problemas, as carências e necessidades.

Amanhã logo cedo iremos com os agentes de saúde fazer as visitas domiciliares, o que nos permitirá ver mais de perto esse cuidado que vêem sendo feito pelos médicos e também as condições em que vive a população.

Visitei a escola municipal de Melgaço Tancredo Neves. Foi emocionante conhecer Maria Luiza, de 22 anos, que aguardava pegar o diploma de conclusão do ensino médio.

Vinda da zona rural de Melgaço, se mudou para a sede do município porque queria estudar. Tem oito irmãos, cinco mulheres. A mais velha tem 25 anos, e todas ja têm filhos.

Ela resolveu que só teria filhos quando tivesse condições financeiras melhores e um parceiro que a acompanhasse.

Atualmente, vive sozinha em Melgaço e trabalha como empregada domestica. Ganha 200 reais por mês, e com o diploma, pretende ser professora na comunidade em que vive sua família.

Maria Luiza com o diploma
Maria Luiza com o diploma

Maria Luiza estava comovida. Chegou a ficar três anos sem estudar, por falta de transporte, até decidir vir morar perto da escola. Concluir o ensino medio foi uma luta.

Oitenta por cento da população de Melgaco vive distante da sede do município, onde eu estou. Muitos jovens se deslocam duas, três horas por dia para estudar.

Ouvi muitas historias de pessoas que desistiram. Foi emocionante ver Maria Luiza, uma menina baixinha e forte, com os olhos brilhando, contando sua historia para mim.

Conheci uma guerreira.

Até breve.

 

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