Dinamarqueses boicotam produtos dos EUA após ameaças à Groenlândia

Atualizado em 24 de janeiro de 2026 às 22:31
Groenlândia. Foto: Jonathan Nackstrand/AFP

Consumidores da Dinamarca passaram a boicotar produtos americanos após ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Groenlândia, usando aplicativos de celular para identificar e evitar marcas ligadas aos EUA. Um dos apps mais usados, o UdenUSA, atribui selos negativos a produtos americanos, como forma de protesto simbólico contra a pressão geopolítica de Washington. Com informações do Globo.

A iniciativa ganhou força depois que Trump voltou a falar publicamente sobre a possibilidade de tomar a Groenlândia, território autônomo que integra o Reino da Dinamarca. Desde então, os downloads de aplicativos de boicote dispararam. O UdenUSA se tornou o aplicativo gratuito mais baixado da App Store no país. Segundo o cocriador do app, Jonas Pipper, de 21 anos, a ferramenta funciona como uma resposta direta do consumidor comum. “É uma arma na guerra comercial para os consumidores”, afirmou. Para ele, o principal valor está em permitir que cidadãos enviem um recado político claro aos Estados Unidos.

Embora a Dinamarca tenha apenas cerca de 6 milhões de habitantes e peso econômico limitado frente aos EUA, a mobilização chamou atenção na Europa. A popularidade dos aplicativos evidencia como a retórica de Trump tem provocado incômodo até mesmo entre setores que antes demonstravam simpatia pelo ex-presidente. O Partido Popular Dinamarquês, de extrema direita, rompeu o tom conciliador e criticou duramente as declarações sobre a Groenlândia no Parlamento Europeu.

O movimento não ficou restrito aos consumidores. Investidores institucionais também reagiram. O fundo de pensão AkademikerPension anunciou a venda de sua posição em títulos do Tesouro americano, avaliada em cerca de US$ 100 milhões. O diretor de investimentos do fundo, Anders Schelde, afirmou que a decisão levou em conta vários fatores. “Não dá para colocar o gênio de volta na garrafa”, disse, ao explicar que a insegurança em relação aos EUA vai além de um único mandato presidencial.

Trump e a Groenlândia

A resposta do governo americano foi imediata. Em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, minimizou o impacto da decisão dinamarquesa. “Os investimentos da Dinamarca em títulos do Tesouro americano, assim como a própria Dinamarca, são irrelevantes”, afirmou. A declaração reforçou o tom de confronto adotado por Washington diante de qualquer reação externa às suas políticas.

Apesar do caráter simbólico, especialistas apontam que boicotes desse tipo têm efeito político mais do que econômico. Identificar marcas americanas nem sempre é simples, já que multinacionais operam localmente por meio de licenças e parcerias. Ainda assim, o crescimento do UdenUSA e de aplicativos semelhantes mostra que parte da sociedade europeia passou a incorporar o consumo como instrumento de pressão política. Como resumiu Pipper, em tom irônico, “não sei se Trump tem um iPhone, mas ele poderia usar o aplicativo, se quisesse”.