“Diplomacia do governo eleitoreiro de Bolsonaro levou Brasil a uma das piores crises do mundo”, diz revista francesa

Revista francesa Courrier International responsabiliza Bolsonaro e desigualdades sócio-econômicas do Brasil pela crise

Além dos brasileiros, o mundo também se pergunta como o Brasil chegou a uma situação tão grave diante da pandemia de Covid-19.

“Como o Brasil e a Índia chegaram a esse ponto?”, pergunta esta semana a revista Courrier International, do grupo de mídia francês Le Monde, numa comparação que já era comum antes da pandemia, pela estratificação da sociedade em castas, e agora se repete frente a gestões de extrema direita.

“A Índia e o Brasil vivem duas das piores crises de coronavírus no mundo. Como estas duas crises chegaram a esse ponto?”, pergunta a publicação.

“Recentemente, Jair Bolsonaro se comprometeu a acelerar a campanha de vacinação, então poderíamos pensar que ele adotou um tom um pouco mais responsável, que ele finalmente se conscientizou da gravidade do problema, mas na verdade, não. Ele continua a questionar sua eficácia. Ele também culpou as medidas de restrição. Nacionalmente, ele sempre se recusou a adota-las”, relata Morgann Jezequel, correspondente no Brasil.

“Bolsonaro quer se candidatar às eleições de 2022 e para isso ele quer ter um balanço positivo. A ideia de Jair Bolsonaro é não endossar a responsabilidade pela crise econômica que já está em curso, e corre o risco de se agravar, e de jogá-la em cima das autoridades locais”, afirma a repórter.

“Eu penso que há um grande negacionismo do presidente brasileiro na veiculação de falsas informações nas redes sociais. Tensões diplomáticas com a China e uma certa falta de diálogo com a Índia fizeram com que o Brasil atrasasse essas negociações, chegando hoje a uma campanha de vacinação muito lenta. Estamos falando de problemas diretamente ligados à diplomacia do governo Bolsonaro”, avalia.

O teto de gastos adotado pelo golpe é apontado como uma das causas da precarização do SUS. “As despesas com saúde foram congeladas desde 2016. Então, há necessariamente problemas de infraestrutura”.

“De todo modo, a situação seria muito grave no Brasil porque as desigualdades sócio-econômicas são extremamente fortes. Mas sobretudo a falta de apoio do governo federal às autoridades locais e à população contribuiu para a gravidade da situação atual”, acusa.

Na visão do Courrier International, tanto Jair Bolsonaro quanto seu homólogo indiano Narendra Modi “ignoraram as estatísticas com um objetivo eleitoreiro”; o primeiro pensando nas eleições do ano que vem e o segundo, nas eleições regionais realizadas em março, em que seu partido fracassou.

A situação política brasileira também já é comparada às últimas eleições americanas, como na reportagem “Lula prepara seu retorno e ultrapassa Bolsonaro nas pesquisas”, veiculada pela rádio France Info. “Um presidente populista que gere mal a pandemia e que perde as eleições para um veterano da política. Isso nos lembra alguma coisa”, diz a repórter Elise Delève.

Na França, o contraste também é apontado pela TV 5 Monde: “Acuado, Bolsonaro remobiliza suas tropas em nítida queda nas pesquisas diante de um Lula revigorado”.

Mas as tentativas do presidente brasileiro de ganhar força com os setores mais extremistas da sociedade parecem insuficientes para a mídia francesa. “Os manifestantes pró-Bolsonaro ocupam as ruas no fim de semana, mas durante a semana é uma imagem pouco brilhante do governo que revela a Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado”, ironiza.

“Os canais de informação exibem ao vivo audiências que expõem as falhas da gestão da crise sanitária, entre discursos anti-confinamento e recusa de vacinas que estão cruelmente em falta hoje”, afirma.

Em Portugal, é a grosseria do presidente brasileiro que chama a atenção no jornal Correio da Manhã.

“‘A Caixa, com o ladrão de nove dedos, dava prejuízo. Agora traz benefícios ao povo brasileiro’, declarou Bolsonaro em Alagoas, onde inaugurou casas populares financiadas pelo banco Caixa Económica Federal, numa grosseira alusão ao facto de Lula não ter o dedo mínimo da mão esquerda”, aponta Domingos Grilo Serrinha, correspondente no Brasil.

Nesta quarta-feira, novos malefícios da gestão bolsonarista na imprensa internacional. “Mandados de busca na casa do ministro do Meio Ambiente, suspeito de tráfico de madeira”, noticia o jornal francês Le Figaro.

“Uma decisão do Ministro do Supremo Tribunal Alexandre de Moraes autorizou a operação e a quebra de sigilo bancário desse ministro altamente controverso, muito criticado em razão da alta no desmatamento da Amazônia desde que Jair Bolsonaro tomou posse como presidente em 2019”.