“Discutir porte de arma é caminhar na contramão da prevenção do suicídio”, diz psicóloga

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O suicídio é um tema muito falado no mês de setembro, mas muitos tabus e dúvidas ainda rondam o assunto. Será que existe causa? O ato de tirar a própria vida tem a ver com depressão? Que caminhos as políticas públicas devem seguir?

Para responder a esses questionamentos, o Brasil de Fato MG conversou com a conselheira e coordenadora da Comissão de Psicologia Clínica do Conselho de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), Mariana Tavares.

Brasil de Fato – No mundo do jornalismo, há uma regra de não ter publicações sobre suicídio. Isso é correto?

Mariana Tavares – Na verdade, isso de que o jornalista não pode falar sobre o suicídio é uma regra não escrita, é mais um tabu. Em 2006, a Organização Mundial de Saúde [OMS] soltou uma nota orientativa para o jornalismo e a publicação das notícias sobre suicídio. Ela diz para não criar um clima sensacionalista, não abordar o método usado, não ter foto, etc. Isso tudo para não criar, como foi identificado em tempos anteriores, um contágio do suicídio, chamado de Efeito Werther. “Os sofrimentos do Jovem Werther” é um livro escrito no século XVIII pelo alemão Goethe, que conta a história de um amor não respondido e o personagem se suicida. Após a leitura desse livro, houve uma onda de suicídios na Alemanha. Esse seria o motivo pelo qual haveria o impedimento de publicações sobre o assunto. Porém, após a nota da OMS, não é mais estabelecido que não se fale sobre suicídio. O que se sabe hoje é que falar sobre o tema alivia e possibilita que as pessoas possam identificar em si mesmas e na comunidade ao redor o desejo, a ideação suicida. Claro, não é para ter uma cobertura midiática sensacionalista, mas os problemas, as dificuldades, os medos, as inseguranças, a multicausalidade do suicídio e as possibilidades de ver a vida de um novo modo são coisas que podem ser perfeitamente contadas.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, o Brasil é o oitavo país em número de suicídios no mundo. As estatísticas também mostram que os casos tendem a aumentar até 2020. Existem análises que podem dar conta de fatores relacionados a esse crescimento no nosso país?

O que nos alerta é a rapidez do aumento, que está acontecendo especialmente entre jovens e idosos. Na juventude brasileira, o suicídio oscila entre a segunda e a quarta causa de mortalidade. Entre idosos, os casos aumentam na população com mais de 60 anos. Para fazermos uma análise específica, ainda precisamos percorrer um caminho. Mas o que se sabe em relação aos idosos, por exemplo, é a respeito dos fatores macrossociais, como aposentadoria, a perspectiva de tornar-se improdutivo ou tornar-se um “fardo”. Hoje há muito relato de abandono, porque as famílias, nessa batalha pela própria vida, não estão dando conta de cuidar. Mas não podemos olhar pra isso de uma forma moralista, porque é uma questão relacionada a como está a perspectiva macrossocial do cuidado com a população. No Brasil, a melhor forma de prevenir o suicídio é ter políticas públicas de moradia, renda, cultura, educação, entre outras. Em outros países da América Latina, como no Chile, já existem relatos de que o índice dos suicídios entre idosos pode estar se relacionando com o fim da Previdência Social no país – o que nos faz prestar atenção no que vai acontecer no Brasil com a reforma trabalhista e toda essa perda de direitos. É evidente que isso vai bater nas nossas taxas de suicídio (claro que não imediatamente, porque a gente só consegue verificar ao longo do tempo).

São muitos outros fatores possíveis. Quem compõe esse perfil dos idosos são pessoas que trabalharam, que tiveram carreiras profissionais em um mundo que havia emprego e uma identificação forte do sujeito ao trabalho, uma coisa muito importante para a formação da identidade. Hoje, nós vivemos uma “uberização” da economia, em que o conceito de empreendedorismo está crescendo com esse sentido de que é muito legal ser o patrão de si mesmo, que é só você querer que você que consegue. Em uma sociedade que veicula esse tipo de valor, é claro que o individualismo, a competitividade e o imediatismo vão crescer. É uma visão de meritocracia de que o sucesso está nas mãos de cada um, mas ninguém avalia quais são as condições de cada um.

E os cortes de investimentos na saúde mental? Você acredita podem influenciar, um dia, no número de suicídios?

Então, a nossa perspectiva daqui em diante é bem sombria. Podemos ser bastante pessimistas. Há um indicador de que os municípios que têm CAPs [Centros de Atenção Psicossocial] reduzem a taxa de suicídio em 14%. É claro que a existência do cuidado em rede, não só da saúde mental, é um grande fator de prevenção ao suicídio.

No caso da juventude, vemos ultimamente muitos seriados e programas de TV falando de temas como depressão, ansiedade e suicídio. Como você avalia a abordagem dessas produções? 

A gente tem que avaliar isso com muita calma. Eu, pessoalmente, tendo a achar que está ocorrendo uma glamourização, uma estetização, uma espetacularização do suicídio. Existem muitas formas de falar não só sobre a saúde mental, depressão, mas de falar sobre a vida, estratégias comunitárias de valores e pertencimento a grupos.

O que me preocupa bastante no meio de tudo isso é a medicalização da sociedade. A medicalização, que é diferente de medicação, é transformar todos os sentimentos em sintomas biológicos, médicos ou orgânicos. Tem um efeito de tornar algo doença. Pode acontecer de, por exemplo, ao invés de um adolescente falar do seu adoecimento com o intuito de mostrar que deseja ajuda, falar para ter uma espécie de reconhecimento social.

Outra coisa que a gente nota é que compreender o papel da internet é muito difícil. Ainda é um fenômeno pouco estudado porque é de agora e a gente não conhece. É a virtualidade da vida. Inclusive, já existem autores que falam de uma sociedade sem corpo. Ser adolescente é estar saindo de uma situação de proteção, de ser cuidado pelos pais e começar a enfrentar questões relativas à sexualidade, ao amor, à profissão. E isso está se dando de uma forma muito diferente. As relações de amor e de sexualidade estão se virtualizando, o que dá um efeito narcísico e essa falta da troca real da experiência com o outro gera solidão e uma ilusão de autossuficiência.

É comum que quando uma pessoa pratica o suicídio, as pessoas tendam a atribuir a morte a um sentido. Existe um motivo para tirar a própria vida?

É muito importante dizer que a gente pode analisar os aspectos gerais da formação da subjetividade e as taxas de suicídio, analisar o suicídio como um fenômeno macro. Agora, ao falar de cada suicídio, nunca vamos saber exatamente o porquê. Ele é sempre enigmático, multicausal. Não se pode dizer que é porque terminou um casamento, um namoro, porque a pessoa perdeu o emprego. Não dá para fazer afirmações, seria muito leviano e existe sempre uma rede complexa de motivos. Isso mostra o quanto a gente é moralista, o quanto buscamos explicações morais para o fato. É preciso muito cuidado para não arranjarmos culpados imediatos. Numa sociedade tão violenta, competitiva, que faz perder a consciência de classe e de coletivo, a gente também tem que se policiar para não usar esse raciocínio na hora de explicar. Para prevenir, temos que ter um pensamento amplo e não reducionista.

Só se mata quem tem depressão?

Não. E a gente tem que ter muito cuidado porque essa identificação de depressão com o suicídio, em uma sociedade na qual há uma produção de diagnóstico de depressão, é quase uma condenação. O suicídio é de multicausalidade. Pode estar ligado, inclusive, a impulsos. Alguns países conseguiram reduzir os casos porque, dentre outras ações – nunca é só uma -, restringiram o acesso a modos letais, como o veneno, arma de fogo, locais de altura. O que faz perceber que uma sociedade que discute se deve armar as pessoas está completamente na contramão da prevenção do suicídio.

Agora, sobre a depressão: não é uma doença incurável, é tratável e muitas vezes sem necessidade de medicamento. Existe uma confusão muito grande entre processos de perda e luto, que são difíceis mesmo e levam a sentimentos depressivos, mas sem que se caracterize uma depressão. A depressão não é um vírus, é uma coisa que faz parte da narrativa do sujeito, e há a tendência em tornar a depressão uma doença que é culpa do sujeito, da qual ele próprio pode se alienar.

Uma nova profissão que está crescendo ultimamente é o coaching e muita gente acha que tem a ver com terapia. Pode explicar as diferenças?

Bom, existem profissionais sérios em todas as atividades. Porém, o coaching é uma atividade baseada em superar suas dificuldades atingindo metas. Ou seja, é o discurso da produção. E a terapia é encontrar o seu lugar de singularidade, que permite lidar com o seu desejo de uma forma libertária. É uma coisa muito coercitiva do sucesso isso de a gente achar que não tem tempo de construir a própria relação com nós mesmos e entender que as nossas dores são coisas que a gente tem que exterminar.

Você acha que a nossa sociedade não sabe lidar com a tristeza?

Sim… Ela é parte da vida. Essa é mágica das relações de consumo, que te fazem achar que o que te falta é um objeto. E que esse objeto pode ser comprável, uma mercadoria. Vemos muitos pais não conseguindo lidar com a frustração dos filhos e suprir, dar, dar, consumir. Sempre tampando. Tampando essa falta que é, na verdade, o que nos motiva. Somos uma sociedade que realiza demandas, mas deseja pouco.

Eu conheço alguém que tem pensamentos suicidas. O que devo fazer?

Nunca desqualificar. Nunca dizer “ah, mas você tem uma vida tão boa” ou “você tem uma casa e tem gente que não tem”. Sempre leve a sério. Se não souber como ajudar, procure ajuda. Pode ser na escola, no serviço de saúde… Chame essa pessoa para falar o que está acontecendo, em espaços terapêuticos mas também em família, no círculo de amizades. Geralmente, um suicídio é precedido por um pedido de socorro. Dizem até que 90% dos suicídios são evitáveis, porque a pessoa dá pista. O Setembro Amarelo é importante pra alertar e diminuir tabus, mas é uma coisa que tem que ser feita sempre. E é necessário tomar cuidado pra não associar à doença, ao ato de tomar remédio.

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