“Disparos feitos por empresa espanhola são apenas a ponta do iceberg”, diz Eugênio Aragão. Por Donato

Ex-ministro do governo Dilma, Eugênio Aragão

Áudios obtidos pela Folha de S.Paulo revelam que a empresa espanhola Enviawhatsapps vendeu seu software de disparos para empresas brasileiras. Segundo o jornal, o proprietário da empresa admitiu em uma reunião com outros empresários que aqueles clientes empresariais brasileiros estavam fazendo campanha pró Bolsonaro.

Afirmou que eram “empresas, açougues, fábricas”. Num ato falho ou propositalmente irônico, disse também que entre eles havia “lavadoras de carros”, nosso popular “lava-jato”. Espirituoso o rapaz.

A atual denúncia soma-se às já feitas no ano passado que demonstravam que as empresas Quickmobile, CrocServices e Yacows impulsionaram disparos pelo aplicativo contra o PT.

A de agora torna tudo ainda mais grave.

Doações de empresas para campanhas eleitorais estão proibidas no Brasil. Além disso, o impulsionamento via redes sociais também só é permitido às campanhas oficiais dos partidos (como agências contratadas, por exemplo), entretanto sem poder fazer uso de ferramentas instaladas fora do país. A turma da lavadora de carros infringiu tudo.

O PT também foi acusado de impulsionar irregularmente um site contra Bolsonaro na campanha de Fernando Haddad. Foi processado e multado pela TSE em R$ 176,5 mil.

A ação contra o PSL, ao contrário, está parada no mesmo TSE há mais de 8 meses, sem ninguém ter sido ouvido.

O advogado Eugênio Aragão falou ao DCM sobre as novas denúncias e a morosidade.

Como vê as novas revelações de que uma empresa espanhola foi contratada por empresários para fazer disparos em massa pró Bolsonaro?

Esse caso exposto agora é apenas a ponta de um iceberg porque sabemos que é muito mais do que isso. Sabemos que os disparos foram em escala industrial e que o valor dispendido por eles foi altíssimo. Cálculo feito por especialistas no exterior aponta que chegaria a alguns milhões de euros. Não é simplesmente o açougue da esquina que bancou isso. Essas doações foram sistemáticas e acreditamos que muitas doações vieram do exterior.

Enquanto o PT já foi até multado por esse motivo, a ação ajuizada pelo senhor para apurar os disparos da campanha do PSL até hoje está parada. Já se passaram 8 meses, ninguém foi ouvido.

Há um claro viés, um ‘discreaming’ entre a atuação do TSE em relação ao PT. Contra o PT tudo é rápido, veloz, enquanto os adversários são tratados a pão-de-ló. Vemos isso em relação a esses disparos. Enquanto o PT foi multado a toque de caixa, as ações contra o outro lado dormitam em berço esplêndido.

O principal agente a ser ouvido, o dono da Quickmobile, foi até retirado do processo no TSE. Como contornar isso?

Vamos insistir na inquirição dele porque o TSE está levando, a nosso ver, de uma forma mansa, muito tranquilo. Precisamos que haja mais empenho nisso. Mas vamos insistir até com medidas judiciais para garantir que todas as pessoas sejam ouvidas.

A Polícia Federal até hoje não fez nenhum relatório sobre o tema. A PF anda no ritmo que bem entende?

Não é só a Polícia Federal. Nós representamos a PF na época assim como representamos também ao Ministério Público. Tivemos uma conversa direta com a então diretora-geral em exercício pedindo providências. Estamos atentos a isso e vamos fazer nova pressão sobre a PF e sobre o MP para que levem essas investigações a cabo.

Caso esse processo tenha um andamento austero, correto, pode ter como desfecho a cassação da chapa Bolsonaro/Mourão. É por conta desse risco que a coisa está sendo levada em banho-maria?

Isso que temos aí, que são despesas fora das prestações de conta oficiais, feitas através de doações informais de pessoa jurídica, é o suficiente para configurar abuso de poder econômico. E como tal é suficiente para levar à cassação da chapa. É disso que se trata e é nisso que estamos nos empenhando.

Que análise o senhor faz dessa onda de denúncias que estão sendo veiculadas sobre as irregularidades (e até ilegalidades) ocorridas desde antes da campanha eleitoral envolvendo juízes, procuradores e empresários que terminaram com a vitória de Bolsonaro?

A Lava Jato, como sabemos, é parte de todo um estratagema de impedir que o PT voltasse ao poder. A rapidez com o TRF-4 julgou a apelação ainda em janeiro, durante o recesso dos tribunais superiores, foi uma atitude descarada. Da mesma forma a combinação entre os desembargadores da turma. Moro dispensa qualquer tipo de observação. Como se comprova agora ele era claramente um ator interessado em golpear um projeto progressista e soberano para o Brasil para entregar o país a interesses espúrios que acabaram levando à vitória de Bolsonaro do qual ele agora é ministro. Um jogo no qual as peças se encaixam perfeitamente.

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