
A posição de goleiro sempre foi tratada de forma peculiar no futebol brasileiro. Em um país que produziu gênios ofensivos em série, o arqueiro virou quase uma função política: precisa passar confiança, ter “cara de goleiro” e, historicamente, atender a um padrão que nunca foi exatamente técnico. Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, a Seleção Brasileira vive uma crise na posição, que escancara velhos vícios do futebol nacional.
O cenário atual é preocupante. Alisson chega de lesão e sem jamais ter protagonizado uma defesa histórica em Mundiais. Ederson alterna atuações seguras com falhas difíceis de explicar. John retorna após meses parado. Weverton caiu de rendimento e perdeu espaço. E Bento, homem de confiança de Cláudio Taffarel, preparador de goleiros, segue tratado como prioridade absoluta mesmo colecionando falhas.
O mais recente foi constrangedor. No clássico entre Al-Nassr e Al-Hilal, Bento fez um gol contra bizarro nos acréscimos, adiando o título saudita praticamente garantido do time de Cristiano Ronaldo. Uma falha grotesca, incompatível com o nível de exigência de uma Seleção Brasileira. Ainda assim, nada parece abalar sua condição privilegiada junto à comissão técnica.
Bento nunca atuou em um gigante do futebol brasileiro, nunca fez partida memorável pela Seleção e esteve em campo na goleada por 4 a 1 sofrida contra a Argentina, em Buenos Aires, resultado que ajudou a derrubar Dorival Júnior. Mesmo assim, segue protegido. E protegido porque tem padrinho forte: Taffarel.
O ex-goleiro, idolatrado com justiça pelo tetra, virou uma espécie de fiador moral de Bento dentro da Seleção. E isso pesa. Talvez pese mais do que o desempenho.
Enquanto isso, Hugo Souza vive o melhor momento da carreira no Corinthians. Seguro, decisivo e especialista em pênaltis, justamente o fundamento que eliminou o Brasil na última Copa do Mundo. Hugo não é um fenômeno geracional como Dida ou Marcos foram, mas hoje parece mais pronto do que todos os concorrentes. Ainda assim, a sensação é de que corre por fora desde sempre.
Há também Carlos Miguel, que ganhou espaço no Palmeiras pela imposição física, reflexo e personalidade. Outro goleiro negro que parece precisar fazer muito mais para receber a mesma confiança concedida automaticamente a outros nomes.

Isso não é coincidência histórica. O futebol brasileiro sempre foi cruel com goleiros negros. Barbosa carregou sozinho o trauma de 1950 durante décadas, transformado injustamente em símbolo eterno do Maracanazo. Já Júlio César, branco, falhou em 2010 contra a Holanda, ganhou nova oportunidade em 2014 e terminou a carreira em Copas levando sete gols da Alemanha no Mineirão. O tratamento nunca foi igual.
Existe, sim, um filtro subjetivo na posição. Goleiros brancos erram e recebem nova chance. Goleiros negros erram e carregam estigmas.
A insistência em Bento, mesmo diante de falhas constantes, enquanto Hugo Souza segue subestimado, reforça uma lógica antiga do futebol brasileiro. E talvez o maior problema da Seleção hoje não seja apenas técnico. Seja a incapacidade de enxergar certos goleiros com os mesmos olhos.