“Ditadura não se comemora”: tiro de Bolsonaro saiu pela culatra. Por Joaquim de Carvalho

Bolsonaro, quando era deputado

A hashtag DitaduraNaoSeComemora ocupa neste momento o topo dos assuntos mais comentados do Twitter, o que indica a rejeição à proposta de Jair Bolsonaro de comemorar o golpe de 1964.

O próprio Bolsonaro, hoje no Twitter, em vez de tocar no assunto que levantou, decidiu focar nos radares das estradas.

O tiro de Bolsonaro, portanto, saiu pela culatra, uma reedição do famoso apelo de Fernando Collor para que, em 1992, as pessoas saíssem de verde e amarelo às ruas, e o que se viu foi uma multidão vestindo preto, a cor do luto.

A ideia de Bolsonaro, de incentivar a “comemoração” do golpe de 1964, acabou, de certa forma, tendo um efeito positivo: os brasileiros começaram a discutir o que foi, efetivamente, o movimento militar de 64.

Entre as muitas mensagens que recebi neste 31 de março, me chamou a atenção um vídeo que mostra uma conversa telefônica do presidente dos Estados Unidos da época, Lyndon Johnson, em que ele diz:

“Devemos tomar todas as medidas possíveis, estar prontos para agir. Vamos ficar em cima de Goulart e nos expor se for necessário. Nós não podemos engolir esse cara.”

A elite brasileira, aliada aos EUA, estava irritada com João Goulart, em razão da nacionalização das refinarias, da proposta de reforma agrária e do estabelecimento de controle sobre remessas de lucros ao exterior.

O golpe da ocasião, assim como em 2016, com o lero-lero das pedaladas fiscais, nasceu de uma mentira: A promessa era impedir uma “ditadura comunista” e restaurar a ordem. 

Mentira que continua a ser contada, como na ordem do dia lida sexta-feira nos quartéis.

“As famílias no Brasil estavam alarmadas e colocaram-se em marcha. Diante de um cenário de graves convulsões, foi interrompida a escalada em direção ao totalitarismo. As Forças Armadas, atendendo ao clamor da ampla maioria da população e da imprensa brasileira, assumiram o papel de estabilização daquele processo”, destacaram os militares em seu texto.

Fraude em grau elevado: Quem implantou uma ditadura e ficou 21 anos no poder foram os militares, alegando defesa da democracia. Cinismo ou ironia?

João Goulart, um fazendeiro, foi derrubado pela força sem que tivesse nenhuma relação mais profunda com países totalitários, como China, União Soviética ou Cuba.

Bolsonaro é o ponto onde essa farsa se reconecta, e um momento decisivo para identificar a trajetória é o dia 17 de abril de 2016: a homenagem que ele prestou ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um torturador condenado, ao votar pela abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff:

Vistas com o distanciamento que o tempo permite, é possível concluir que Bolsonaro se tornou, em 2016, a expressão dos porões que nunca foram fechados ou dedetizados, nunca passou por um processo de higienização institucional.

O golpimpeachment, num certo sentido, pode ser visto como a revanche dos porões a uma tentativa, tímida, de enfrentar essa ferida.

Os militares nunca engoliram a Comissão da Verdade, criada em 2011, no governo de Dilma Rousseff e se puseram a conspirar para derrubá-la.

Exagero?

Não.

Foi em 2014, na lembrança dos 50 anos do golpe, que Bolsonaro foi estimulado pelos militares a se colocar como candidato a presidente.

Um militar brasileiro de alta patente que deu entrevista a um jornalista argentino, na condição de manter o anonimato, contou como foi executado o plano, que ele chamou de “Nova Democracia”.

Os generais, almirantes e brigadeiros deviam lealdade a Dilma Rousseff, comandante em chefe das Forças Armadas na época, mas agiam de olho em 2018, na eleição em que teriam candidato próprio.

A história registra que o comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, que serviu a Dilma e a Lula, pressionaria o Supremo Tribunal Federal para que Lula fosse preso e impedido de disputar as eleições, o que, certamente, impediria a ascensão de Bolsonaro.

— General Villas Boas, o que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui — disse Bolsonaro, num dos primeiros eventos de que participou na condição de presidente.

Nunca se saberá o que disseram, para que Bolsonaro chegasse a essa posição. A conversa foi entre eles, mas é algo tão importante que a simples menção levou o general às lágrimas.

O que já se sabe, no entanto, é suficiente refutar a ambos – Bolsonaro e seu padrinho Villas Boas.

O papel dos democratas é não permitir que violem a história, reescrevam suas páginas e tentem apagar os horrores da ditadura.

Amanhã será outro dia.

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