Do que riu Bonner? Por Tiago Barbosa

Atualizado em 23 de agosto de 2022 às 16:13
O risinho de William Bonner

Na vexaminosa sabatina do Jornal Nacional, o risinho visitou o semblante do apresentador em contraste com a face cadavérica de um Bolsonaro mentiroso compulsivo, sem limites e perigoso.

Por que o riso, Bonner?

A internet interpretou como espinafrada na teimosia do entrevistado em distorcer os fatos. Bolsonaristas receberam como sinal inequívoco de “parcialidade”.

Era, no entanto, um gesto deslocado da gravidade circunscrita ao momento histórico, tentativa falha de contrapor narrativas falsas com uma simpatia incabível.

Mostrar superioridade moral e intelectual em relação ao interlocutor? Em vão. É nulo esse sentido do riso diante de quem não se fia por códigos básicos de conduta da humanidade.

Diante dos entrevistadores, o genocida da pandemia.

Culpado por milhares de mortes de brasileiros por asfixia e falta de vacina. Negacionista convicto, promotor de cura falsa e remédio ineficaz. Fiador de uma experiência nazista em Manaus.

Genocídio não rima com risadinhas.

E quem ansiou meses para ver um confronto ao vivo em cadeia nacional? E quem perdeu parentes e esperava uma responsabilização direta de Bolsonaro?

De que adiantaram aqueles editoriais carregados de pesar, as alusões à responsabilidade histórica de um sujeito indiferente à vida, aos doentes e às famílias?

Por que riu Bonner?

Em vez de retrucar? Em vez de rebater mentiras escabrosas até sobre tratamento precoce? Com todos os recursos possíveis à mão da maior empresa de jornalismo do país?

A internet se derramou em memes, lacrações e “jantadas”. Mas riso…?

Deboche? Desprezo ao necessário tom de seriedade para enfrentar um criminoso cuja sentença há de ser assinada em definitivo pela história?

Riria na frente de Hitler? Diante de Mussolini?

Ou ainda há dúvida no jornalismo da Globo de que esse ser depravado será eternizado como o ponto mais baixo da indigência política nacional?

Aquele riso…

Da desinformação? Da incapacidade de responder à altura um ato criminoso de mentiras e fake news executado na própria frente e em cadeia nacional?

Ria da ausência de temas relevantes?

De não ter citado e imputado a esse indivíduo a fome, um terror de barbárie absoluta amargado diariamente por 33 milhões de brasileiros?

Da omissão sobre os sigilos de 100 anos usados por Bolsonaro para manter obscuros esquemas de corrupção e informações públicas relevantes ao país?

Da condescendência com a mentira deslavada de um decrépito sobre a “ausência de corrupção” de um governo atolado em escândalos e negociatas?

O brasileiro vive menos e sofre mais por conta de um tipo como Bolsonaro e Bonner riu diante dele.

É o traquejo de entrevistador, artimanha, dizem os mais benevolentes. Riria com Ciro, Tebet, Lula – mas esse nivelamento embute desprezo à dignidade humana.

Nenhum dos candidatos à presidência faz do exercício da crueldade, da violência e da necropolítica a razão de viver, a filosofia de trabalho e o instrumento de excitação permanente dos alienados.

Bolsonaro, sim.

O risinho soou como absolvição civilizatória, a normalização em horário nobre buscada por Bolsonaro contra a monstruosidade dos quatro anos de governo.

O clímax de uma naturalização ensaiada todos os dias pelos jornalistas da casa através de equivalências falsas, simetrias incabíveis para minimizar o papel da emissora na ascensão de um neofascista ao poder.

Naquele riso, não há a repugnância necessária.

Não há revolta pelos mortos da pandemia. Não há indignação pela volta da fome. Não há inconformidade pelo empobrecimento generalizado.

Não há repulsa contra o armamento, a destruição ambiental, a esbórnia com orçamento secreto – temas veiculados como graves pelo próprio telejornal.

Não há sangue nos olhos por uma justiça social subtraída em nome de um projeto miliciano de poder.

O que diz o risinho a quem testemunha diariamente um país em ruínas e as vidas em frangalhos?

O que fala aos minutos de silêncio na contagem fúnebre ao fim do Jornal Nacional?

Bonner riu, Bolsonaro mentiu, e o país se viu todo com cara de palhaço.