Dona Maria: a “IA bolsonarista” que viralizou com ataques a Lula e ao STF

Atualizado em 14 de abril de 2026 às 14:54
Dona Maria, um avatar de inteligência artificial. Foto: Divulgação

A personagem Dona Maria, criada com inteligência artificial (IA), tornou-se conhecida nas redes sociais por suas críticas ao presidente Lula, utilizando palavrões e um tom revoltado para abordar questões políticas, como o tarifaço de Donald Trump sobre o Brasil, conforme reportagem de Luiz Fernando Toledo na BBC News Brasil.

O vídeo que mais chamou atenção, publicado em julho de 2025, atingiu 8,8 milhões de visualizações e gerou mais de 23 mil comentários. Dona Maria foi criada pelo motorista de aplicativo Daniel Cristiano dos Santos, de 37 anos, morador de Magé (RJ).

Usando a plataforma de IA Gemini, do Google, ele construiu a personagem para expressar indignações principalmente em relação ao governo e à situação econômica do país. A personagem, uma mulher negra e idosa, fala de maneira agressiva e utiliza expressões de raiva, o que a torna ainda mais polêmica e impactante nas redes.

O vídeo sobre o tarifaço de Trump, em que Dona Maria critica a postura do presidente Lula, é um exemplo claro de como a personagem gerou divisões nas redes sociais. Alguns comentaram que a “voz do povo” estava sendo representada, enquanto outros criticaram o uso excessivo de palavrões.

Mesmo sendo um avatar de IA, Dona Maria conseguiu mobilizar milhões e estabelecer uma presença digital comparável à de políticos reais, como a senadora Damares Alves (Republicanos) e o deputado Lindbergh Farias (PT).

De acordo com uma análise da BBC, o perfil de Dona Maria obteve um engajamento semelhante ao de figuras políticas de diferentes espectros, com uma média de mais de 2 mil interações por publicação. Entre julho de 2025 e abril de 2026, pelo menos 12 vídeos da personagem atingiram mais de 1 milhão de visualizações cada.

Daniel Santos afirmou que seu objetivo não era fazer campanha para um candidato específico. Segundo ele, o uso de palavrões e indignação nos vídeos é uma estratégia para se destacar nas redes sociais, já que o algoritmo da plataforma tende a promover conteúdos que geram reações fortes.

“Tinha muitas cópias do meu vídeo. Não havia uma personagem específica para eu poder ter direitos autorais. Ela (a personagem) tem características da minha avó, por parte de mãe, que faleceu quando eu era moleque.”

 

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O cientista político Hilton Fernandes, entrevistado pela BBC, alertou sobre os impactos emocionais desses vídeos, que, mesmo sabendo que são gerados por IA, ainda causam efeito no espectador.

“O fato de ela falar com raiva, usar alguns palavrões, indignação, falar alto, falar rápido, tudo isso cria um clima um pouco desconfortável… se você não acredita no vídeo, você sabe que é inteligência artificial, mas você fica ali à exposição, porque você acaba ouvindo o discurso, inconscientemente, você começa a associar aqueles temas com coisas negativas”, explicou.

“A campanha negativa funciona. O ataque atrai, o ódio desperta a pessoa a se movimentar. Muita gente que fala que quer que o PT saia, não importa quem é o candidato. E isso tem a ver com esse sentimento de ser contra, de oposição”, afirma ele.

A IA gerada por Dona Maria também levanta questões sobre a ética na política digital. A professora Yasmin Curzi, da FGV Direito Rio, destacou que o uso de IA sem a devida rotulagem pode confundir os eleitores e distorcer a percepção pública.

“O problema começa quando esse conteúdo gerado por IA é vinculado sem nenhuma rotulagem. Mesmo na pré-campanha é necessário que esse conteúdo esteja rotulado como produzido por inteligência artificial”, afirma.

“Se o conteúdo tiver IA e não tiver rotulagem, se tiver veiculando fatos inverídicos, esse engajamento gerado pelo candidato pode ser usado como evidência pelo TSE de conhecimento prévio. E o candidato pode responder sim por propaganda irregular”, diz. “Pela jurisprudência do TSE, poderia inclusive gerar configuração de abuso de poder político, dependendo do grau de dano causado no equilíbrio do jogo eleitoral”, conclui ela.

Guilherme Arandas
Guilherme Arandas, 28 anos, atua como redator no DCM desde 2023. É bacharel em Jornalismo e está cursando pós-graduação em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Grande entusiasta de cultura pop, tem uma gata chamada Lilly e frequentemente está estressado pelo Corinthians.