Donos da Globo precisam esclarecer reuniões com emissário de Jeffrey Epstein

Atualizado em 5 de fevereiro de 2026 às 8:57
Jeffrey Epstein em seu avião com uma presa

Documentos liberados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam que Ian Osborne, um influente “fixer”, ou “factotum”, ou ainda “faz-tudo”, britânico que atuava como emissário do bilionário criminoso Jeffrey Epstein, avisou o chefe sobre reuniões com gente rica e poderosa do Brasil em 2013.

Em setembro daquele ano, Osborne enviou uma mensagem a Epstein informando sobre sua agenda no país. A comunicação é direta e revela o escopo de seus contatos:

“No Brasil. Falei ontem em uma conferência de tecnologia aqui; hoje com Eike; amanhã e domingo com as famílias Marino (Itaú) e Marinho (Globo), duas das três mais ricas e poderosas daqui”.

O e-mail não detalha o teor específico dos encontros. No entanto, a simples menção dessas reuniões em correspondência com Epstein levanta questões legítimas sobre o contexto e os propósitos desses encontros.

A Folha deu matéria marota sobre os brasileiros citados nos arquivos. O Globo também. Sintomaticamente, os Marinhos e Marinos não estão lá.

Ian Osborne não é uma figura menor no mundo dos negócios internacionais. Trata-se de um investidor e consultor britânico que construiu uma reputação conectado a elites de Westminster e do Vale do Silício. Nascido em Richmond, no sudoeste de Londres, Osborne estudou na prestigiosa King’s College London e na London School of Economics.

Seus clientes incluem nomes como Mark Zuckerberg e Madonna. Ele trabalhou para Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, e para Yuri Milner, investidor de tecnologia de origem russa. Osborne também foi conselheiro informal do ex-primeiro-ministro britânico David Cameron.

No entanto, Osborne é mais conhecido por sua relação com Epstein. Conforme revelam os arquivos do Departamento de Justiça dos EUA, ele atuou como intermediário entre Epstein e diversos bilionários de tecnologia, políticos britânicos e outras figuras de poder. Oferecia-se para arranjar encontros entre Epstein e personalidades como Peter Thiel, Sean Parker (fundador do Napster), Reid Hoffman (fundador do LinkedIn) e Brian Chesky (CEO do Airbnb).

A correspondência entre Osborne e Epstein revela uma relação próxima e mutuamente benéfica que durou anos. Em junho de 2011, Osborne, então com 28 anos, foi apresentado a Epstein pelo jornalista Michael Wolff e propôs ajudar o criminoso a reconstruir sua reputação pública — apenas três anos após Epstein ter se declarado culpado de solicitar prostituição de uma criança.

Osborne trabalhou para DST Global, a firma de investimento em tecnologia de Milner, e tinha uma lista invejável de contatos do Vale do Silício. Ele oferecia-se repetidamente para arranjar financiamento de Epstein enquanto o criminoso buscava compreender melhor a indústria de tecnologia.

Os arquivos mostram que Osborne visitou a ilha particular de Epstein, Little Saint James — onde ocorreram seus crimes sexuais mais graves — em pelo menos uma ocasião em abril de 2012. Ele também fez arranjos para visitar o Zorro Ranch de Epstein no Novo México.

O nome do empresário Eike Batista também aparece nos arquivos de Epstein. Em 2012, Batista era considerado o brasileiro mais rico do país, com uma fortuna estimada em US$ 30 bilhões segundo a revista Forbes.

Em abril de 2012, Epstein recebeu uma mensagem informando: “Eike Batista está aqui”. Epstein respondeu: “Eu sei… ele está com o Ian Osborne, ou pelo menos é o que o Ian diz.”

Posteriormente, em setembro de 2012, Epstein perguntou a Osborne: “O Eike vai aparecer amanhã à noite?” Osborne respondeu: “Vou verificar, mas acho que não. Acredito que ele sai às 11h.”

Procurado sobre essas menções pelo colunista Ancelmo Gois, do Globo, Eike negou qualquer relação com Epstein:

“Antes que algum adversário se apresse a fazer qualquer insinuação, gostaria de deixar claro que não conheço e nunca falei com Epstein. E, mesmo se o tivesse conhecido, entendo que ele jamais me convidaria para as festas que, supostamente, promovia. Quem me conhece sabe que sou avesso a badalações.”

Email de Ian Osborne para Epstein, citando os Marinhos, da Globo, acionistas do Itaú e Eike Batista

A revelação dessas reuniões levanta várias questões que demandam esclarecimento:

1.Qual foi o propósito específico das reuniões entre Osborne e representantes das famílias Marinho e Villela Marino?

2.Que informações foram compartilhadas durante esses encontros?

3.Havia conhecimento, por parte das famílias, sobre a natureza das atividades de Osborne e sua relação com Epstein?

4.Houve qualquer transação comercial ou acordo resultante desses encontros?

5.Por que a mídia brasileira, incluindo a própria Rede Globo, não divulgou amplamente essa informação quando os arquivos foram liberados?

Os arquivos de Epstein revelam que Osborne era muito mais do que um simples consultor. Ele atuava como intermediário sofisticado entre Epstein e as elites globais de tecnologia, política e negócios. Sua capacidade de arranjar encontros com figuras de poder — desde ex-primeiros-ministros até bilionários do Vale do Silício — sugere que Osborne tinha acesso a círculos de influência extraordinários.

A presença de Osborne no Brasil em 2013, reunindo-se com as duas famílias mais ricas e poderosas do país, não é um detalhe trivial. Levanta questões sobre a extensão das redes de Epstein e sobre quem mais pode ter tido contato com seu círculo de influência.

Ian Osborne, lobista ligado a Epstein
Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.