Doria e Bolsonaro se equivalem na dissimulação em meio à pandemia

Bolsonaro e Doria

No dia em que governadores se rebelam por causa da irresponsabilidade de Bolsonaro na pandemia – entre eles inclusive o aliado Ronaldo Caiado (GO) -, o vice-presidente Hamilton Mourão vem a público defender a vacinação como opção para vencer a covid.

“A única saída é vacinar todo mundo. O resto todo é paliativo“, disse o general nesta segunda, 1, ao ser questionado sobre medidas de fechamento de comércio tomadas por alguns chefes de governo.

Os governadores, após Bolsonaro listar valores que o governo federal teria repassado em 2020 a cada estado, contestaram o presidente.

Na conta simplificada que retirou do Portal da Transparência, Localiza SUS e Senado Federal, Bolsonaro citou valores diretos (saúde e outros), indiretos (suspensão e renegociação de dívidas) e colocou à parte o valor do auxílio emergencial.

A postagem ocorre em um momento em que o governo federal é cobrado a voltar a financiar leitos de UTI (unidade de terapia intensiva).

De acordo com os gestores estaduais, os dados são distorcidos porque englobam repasses obrigatórios pela Constituição Federal, que estão previstos pelo pacto federativo.

Wellington Dias, governador do Piauí, disse que o capitão “engana a população” com a postagem.

“As transferências constitucionais obrigatórias e os benefícios previdenciários não podem ser vistos ou divulgados como ação extraordinária do governo federal. São recursos que cada estado e município têm direito pelo pacto federativo. Não é favor algum!”, disse Wellington Dias.

“Estamos à beira de um colapso nacional na rede hospitalar. Chegamos a 255 mil óbitos no Brasil, mais de mil pessoas morrendo por dia e milhares sofrendo em hospitais lotados. Em que contribui atitudes como esta do presidente?”, completa.

Nesta segunda, os gestores estaduais voltaram à carga em uma carta pública.

“Em meio a uma pandemia de proporção talvez inédita na história, agravada por uma contundente crise econômica e social, o Governo Federal parece priorizar a criação de confrontos, a construção de imagens maniqueístas e o enfraquecimento da cooperação federativa essencial aos interesses da população”, diz o documento.

Eles esclarecem que os valores apresentados pelo presidente são repasses obrigatórios previstos na Constituição e abastecem, por meio de impostos pagos pela população, os Fundos de Participação dos Estados e Municípios, Fundeb, SUS e royalties.

No total financeiro, os gestores estaduais afirmam que foram incluídos valores utilizados para pagamento do auxílio emergencial, “iniciativa do Congresso Nacional”, e suspensões de pagamentos de dívida federal por decisão judicial antes da pandemia.

Em outra investida irresponsável, Bolsonaro usou uma montagem destacando a chamada de duas reportagens: uma do UOL, em que ele diz, sem provar, que “isolamento pode levar a suicídios e depressão”; e outra do site bolsonarista Gazeta do Povo afirmando que “depressão e suicídio entre jovens aumentam durante a pandemia”.

A matéria compartilhada mostra dados sobre o aumento de suicídios nos Estados Unidos e sequer cita o Brasil.

Como se não bastasse, é assinada por uma escritora de extrema-direita, Kerry McDonald, defensora do homeschooling e, até, do unschooling.

O meme foi distribuído aos grupos de bolsonaristas e logo viralizou nas redes.

Enquanto o presidente trama contra a saúde da população, a Covid-19 avança a galope no país – já matou 255.018 brasileiros e neste domingo, 28, bateu novo recorde na média móvel dos últimos sete dias, de 1.208 óbitos diários – 11% maior do que o cálculo de duas semanas atrás.

Nessa briga em que Mourão dá sinais de que está um passo além de Bolsonaro no quesito responsabilidade, vale registrar a imoral decisão de João Doria: para fazer média com pastores e religiosos, o gestor, que disputa com o capitão a fatia conservadora do eleitorado no ano que vem, anunciou um decreto classificando igrejas como atividades essenciais no estado.

“O decreto reconhece a essencialidade de todas as igrejas no estado de São Paulo e o seu funcionamento com a regularidade, obedecidos os critérios sanitários de proteção aos que dela participam. Esperança, fé e oração, com vacinas, vamos vencer a covid. Viva a vida”, disse Doria, ao lado de um grupo de religiosos que aplaudiram a decisão.

Na corrida maluca em que transformaram o país em meio a uma crise sanitária sem precedentes, Bolsonaro e Doria se equivalem na dissimulação. Ambos são calculistas e tomam decisões pensando exclusivamente na sucessão presidencial de 2022.

Os governadores fazem bem de reagir a Bolsonaro – já bastam colegas que roem a corda como Doria. No fim, são eles é que pagam o pato pelo caos que está se instalando nos estados com UTIs abarrotadas e filas nas portas dos hospitais.

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