Doria X Haddad. Por José Cássio

dória e haddad, foto da prefeitura de São Paulo

 

Conforme o domingo, 2 de outubro, se aproxima, o perfil de cada candidato vai se desenhando, junto com o projeto de São Paulo que cada um deles propõe.

Analisando os debates dos candidatos à prefeitura, é possível notar que a maioria dos projetos discutidos já estão de alguma forma sendo colocados em prática pela atual gestão.

Entre esses temas estão ciclovias, redução do limite de velocidade, ocupação da cidade a partir de iniciativas como a Paulista Aberta ou os blocos de carnaval nos bairros, integração do transporte público, passe livre para estudantes, estímulo de atividades nos CEUs, melhoria da iluminação pública, obras pontuais onde é de fato necessário, seriedade nas finanças, entre outros.

Se Haddad já está fazendo a lição de casa, então por que ele não consegue emplacar nas pesquisas e ainda corre o risco de nem ir ao segundo turno?

Tenho uma opinião particular para essa questão.

Primeiramente, Haddad subestimou a vocação do morador de São Paulo para o individualismo e, principalmente, sua paixão pelo automóvel.

Da mesma forma, também subestimou a tendência conservadora que marca o morador da cidade, acostumado a botar suas fichas em nomes como Jânio Quadros, Paulo Maluf e Adhemar Barros.

Não é a primeira vez que este cenário se desenha.

Um exemplo foi a gestão de Luiza Erundina, que também é candidata nesta disputa.

Quando foi prefeita, entre 1989 e 1992, Erundina arrumou as finanças da cidade, criou melhores condições para o transporte público, construiu hospitais, valorizou o funcionalismo, melhorou a educação.

Fez uma gestão impecável do ponto de vista ético e da participação popular, mas não foi perdoada por negligenciar na manutenção do calçamento. A cada buraco na rua, coisa comum num cidade imensa e caótica, o povo malhava a prefeita.

Some-se a isso a perseguição da mídia ao seu governo e Erundina, que se não conseguiu tudo ao menos apontou caminhos interessantes para a metrópole, não pode dar continuidade a seu governo, visto que seu candidato em 1992, Eduardo Suplicy, perdeu para Maluf.

O que Maluf fez?

Basicamente intervenções urbanas: túneis, alargamento de avenidas e outras construções que constituíram num escândalo de corrupção tão acintoso que ele e seu filho Flávio seriam presos em 2005, acusados de formação de quadrilha, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Entretanto, antes de ver o sol nascer quadrado, e tendo lidado bem com os anseios da classe média que esperava mesmo intervenções que viabilizassem os deslocamentos individuais, Maluf encerrou a gestão com aprovação recorde, o que possibilitou eleger o sucessor Celso Pitta com os pés nas costas.

Com Haddad, acontece exatamente o mesmo que aconteceu com Erundina.

O petista fez uma boa gestão, voltada para pensar a cidade, colocar as coisas para funcionar e apostando na manutenção delas com a certeza de que a continuidade irá se desdobrar em avanços no curto e no médio prazo.

Porém, o lado imediatista e individualista dos moradores acabou deixado de lado e, ainda, há que se fazer justiça, como Erundina o atual prefeito tem toda a grande imprensa como grande crítica do seu modelo de administrar.

Quem está capitalizando isso, como Maluf em 92?

Certamente João Doria, o personagem que incorpora com maestria o materialismo imediatista do paulistano.

O tucano promete o que a classe média quer ouvir: gestão, inovação e, principalmente, fazer prevalecer os direitos individuais sobre os coletivos, como aumentar o limite de velocidade, rever as ciclovias e faixas de ônibus, privatizar o que for possível, entre outras medidas.

Se Haddad tiver que perder, não será para Marta Suplicy, nem para Celso Russomanno, mas para Doria.

O candidato do PSDB, sem contar o fato de ser o escolhido pela imprensa tradicional, é o que melhor expressa o contraponto ao projeto social que Haddad vem tentando implantar.

A menos de duas semanas para o primeiro turno, há claramente na cidade um embate semelhante ao que foi protagonizado por Erundina e Maluf em 1992: o de uma São Paulo mais coletiva, incorporada por Haddad, e uma mais individualista, representada por Doria.

Do ponto de vista da dignidade pessoal e da ética na vida pública, já conhecemos Erundina e Haddad.

O que esperamos é que Doria não se revele um Maluf da vida, pois, neste caso, o passo atrás será duplo: de conceito, levando em conta a visão da melhor cidade para o futuro, e de prática, já que tudo o que não precisamos neste momento é de um lobista no comando do caixa.

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