Por que Dowton Abbey virou mania

A série inglesa faz sucesso em todo o mundo.

Downton Abbey
Downton Abbey

Quando comprei, na Livraria da Vila, a primeira temporada de Downton Abbey, fiquei admirada com a beleza da locação (a série foi filmada em Hampshire, no Highclere Castle) e com as críticas, em geral muito positivas, que havia recebido tanto na Inglaterra, seu país de origem, quanto no mundo afora.

Downton Abbey fez um sucesso estrondoso. Sua rival da BBC, Upstairs Downstairs, cuja história é bem semelhante (aristocratas, criadagem, eventos históricos – até Kennedy aparece em Upstairs, ainda que bem jovem!), foi um fracasso épico. Quando comparada a Downton Abbey, e eu posso dizer porque assisti a ambas, Upstairs Downstairs é ridícula. Nem mesmo a beleza de Neil Jackson e o talento de Claire Foy foram capazes de salvá-la, e a série foi cancelada na segunda temporada. Isso também indica um upgrade nos seriados da ITV, concorrente da BBC na televisão inglesa. Downton Abbey e Mr. Selfridge, ambas muito boas e com um elenco de primeira, servem de prova.

Mas, quando assisti o primeiro episódio de Downton Abbey, pensei que fosse morrer de tédio. Não foi, de modo algum, amor à primeira vista. Nem mesmo à segunda vista. Mas, por incrível que pareça, eu poderia dizer que foi um amor à terceira vista e, a partir de certo momento (depois de alguma insistência da minha parte, é claro), acabei me interessando pela série e a adorando.

A tentativa da BBC de criar uma série com a estatura de Downton Abbey fracassou. Upstairs Downstairs foi cancelada na segunda temporada.
A tentativa da BBC de criar uma série com a estatura de Downton Abbey fracassou. Upstairs Downstairs foi cancelada na segunda temporada.

Para aqueles que não a conhecem, Downton Abbey é a residência do Conde de Grantham, de sua esposa americana Cora (interpretada por Elizabeth McGovern, a beldade de Era uma vez na América) e de suas três filhas, a bela, fria e esnobe Mary, a sempre deixada de lado Edith e a feminista e politizada Sybil. Como o casal não teve um filho, seus bens passarão para o herdeiro masculino mais próximo, um advogado de Manchester chamado Matthew Crawley, interpretado por Dan Stevens, que foi considerado o homem mais bem vestido do mundo no ano passado.

A esperança inicial é que Mary despose Matthew, mas ela o trata friamente e, de modo pouco lisonjeiro, declara que “jamais se casaria com um homem que nem sequer sabe segurar uma faca como um cavalheiro.” Além disso, considera todos os prazeres e ocupações do primo muito “classe média.” Santo Deus, desde esse primeiro momento todos percebem que os dois, mais cedo ou mais tarde, vão se apaixonar e entrar naquele estado de eles vão ficar juntos ou não? Esse já é, por si só, um dos motivos pelos quais Downton fez tanto sucesso em suas primeiras temporadas, nas quais o casal oscilava entre o noivado e o rompimento, de modo até exaustivo, sucessivamente. O público se interessa por esse tipo de coisa, suponho.

E, embora Downton tenha como foco principal a parte aristocrática da Inglaterra, há um bom enfoque na criadagem, que é enorme. Juro por Deus que deve haver dez vezes mais empregados do que membros de família naquela casa. Pois bem, a história dos empregados, como um plot secundário, é muito eficiente. E tais histórias, é claro, seguem o estilo meio novelesco da série; intrigas, amores, mais e mais intrigas, etc. (Não me levem a mal quando afirmo que a estrutura de Downton Abbey me lembra da de uma novela. Realmente lembra, mas é muito bem feita, com um elenco espetacular e um roteiro excelente. Ou seja, não temam assistir por medo da semelhança). Há toda uma hierarquia entre os empregados, e os mais ambiciosos deles tentam ascender nessa hierarquia por meio de esquemas trapaceiros. E, como é de se esperar, temos os empregados bacanas, como Anna, Bates e Gwen, e os empregados sacanas, como O’Brien e o atraente e manipulador Thomas, pajem homossexual interpretado por Rob-James Collier.

Edith, Mary e Sybil Crawley, respectivamente.
Edith, Mary e Sybil Crawley

O elenco, como eu disse, é muito bom. Vários atores jovens e talentosos foram revelados com Downton Abbey, como Dan Stevens, Michelle Dockery, Jessica Brown-Findlay e Rose Leslie. Vários desses jovens atores deixaram a série, talvez porque não desejassem se prender à uma série longa (Downton está indo para a quarta temporada), ou porque preferissem seguir carreira no cinema. É claro que isso é perfeitamente compreensível, mas alguns fãs não gostaram nem um pouco. “É uma pena que vários deles tenham deixado Downton, porque sem ela nunca teriam estourado”, comentou uma leitora, em um texto sobre a série no Guardian, “Até porque é bem triste para nós a morte de alguns dos personagens mais jovens e adorados da série, que partem dessa para a melhor com um sorrisinho de Hollywood, aguarde-me!”

Bem, é claro que eles farão falta. Mas se Maggie Smith saísse, seria muito pior. É a atriz inglesa de setenta e oito anos que dá à Downton Abbey um maravilhoso toque de comédia, como Violet Crawley, a Condessa Viúva de Grantham, mãe do Conde. Ainda que preconceituosa, elitista e esnobe, Violet é minha personagem favorita. E não só porque Maggie Smith é mãe de Toby Stephens (Ah, a genética!), e sim por conta das pérolas da personagem e de suas tiradas espirituosas.

http://youtu.be/TVMtffzbAwk

Uma delas me divertiu em particular. Quando o diplomata turco Kemal Pamuk morre na casa da família, Violet fica horrorizada e comenta: “Não posso acreditar. Noite passada ele parecia tão bem! Mas é claro que isso aconteceria com um estrangeiro. É tão típico deles.” Repreendida pela neta Mary, no quarto de quem o senhor Pamuk havia morrido, a Condessa Viúva acrescenta, enfática: “Nenhum inglês sonharia em morrer na casa de outra pessoa.”

Clap clap clap para Downton Abbey e, especialmente, para Maggie Smith (que confessou, recentemente, nunca ter assistido um único episódio da série).

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