Dr. Rey para presidente. Por Nathalí Macedo

Era um país muito engraçado.

Não havia democracia por lá: presidentes democraticamente eleitos eram depostos a partir de articulações entre o poder judiciário e grandes empresários, e o povo já não cria na política, nem no poder judiciário, nem em coisa alguma. 

Talvez por isso surgiam por lá figuras engraçadíssimas: Jair Bolsonaro era o exemplo vivo da confusão política deste país muito engraçado. 

Decepcionado com a apatia da esquerda – que, creia, discutia a branquitude de cantoras pop enquanto o país afundava-se no caos – o povo deste país (ou ao menos considerável parte dele), que já não cria em coisa alguma, mas precisava intimamente crer, agarrava-se a Bolsonaro como um mártir paradoxal que dizia defender a vida enquanto apoia torturadores (decerto em busca de atenção). 

O ápice da comicidade deste país – sem democracia e sem esperança – foi a candidatura de um médico esteticista que prometeu resgatar a sensualidade do Brasil. 

Ele tinha um gosto refinado: bronzeamento artificial e estetoscópio como adereço de moda. 

Usava-o na praia, em restaurantes e entrevistas. Era como se o estetoscópio fosse uma parte de seu corpo, uma marca da figura – hilária, diga-se de passagem – que procurava construir sobre si mesmo.

Sem uma esquerda atenta (que conseguisse, em algum momento, parar de olhar para o próprio umbigo), sem democracia e sem os grandes mártires dos quais sempre precisaram, restava ao povo deste país tristemente engraçado, é verdade, a sensualidade – e, como era de costume por lá, rir pra não chorar. 

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