PERGUNTO A ANNA, a recepcionista do hotel, se leu a Trilogia do Milênio, o fenômeno literário e cinematográfico criado por Stieg Larsson. Jornalista investigativo e mais empenhado que talentoso, Larsson escreveu nas horas vagas os romances e morreu do coração antes que o primeiro fosse lançado. Vivia modestamente, como um repórter que não foi longe, e não viu e nem desfrutou o sucesso multimilionário e globalizado de sua ficção, na qual o grande destaque é Lisbeth Salander, uma jovem desajustada, cheia de piercings e tatuagens. Como a Miss Marple, a velhota de Agatha Christie, ela tem uma intuição extraordinária para desvendar mistérios.
“Não, não li”, diz Ana. “Não tive tempo ainda. Trabalho muito.” Ela é russa, tem os cabelos presos num rabo de cavalo e mostra a simpatia profissional e sorridente dos bons recepcionistas. Nas grandes capitais européias, você não encontra nativos em ocupações mais simples. Se não encontra um cargo pretensamente glamouroso, o jovem europeu das capitais importantes dá um jeito de receber dinheiro do governo: o trabalho braçal, ordinário, fica para os imigrantes. Dirigir táxis, lavar pratos, limpar banheiros, atender telefone. Coisas assim. Imagino que Anna tenha uma jornada sofrida ali atrás do balcão. Pergunto a ela seu horário de trabalho. “Das 7 às 15”. Isso quer dizer que ir embora para casa às três da tarde, sem ter entrado numa hora indecente, pode ser considerado estafante.
Bem-vindo a Estolcomo, à Suécia, à Escandinávia, um dos berços do chamado “Estado-Babá”. É um sistema em que, do berço à tumba, você é tratado como uma criança. Impostos altos para quem ganha bem e para as empresas são a base financeira desse sistema. Mesmo um estrangeiro como a jovem russa logo se habitua à paisagem e cria sua idéia de jornadas longas de trabalho como base no que vê a seu redor.
Estolcomo em meados de março é deslumbrante. Imensidões brancas por causa da neve, alguns lagos congelados sobre os quais as pessoas caminham, ruas limpas como em poucos lugares. A mistura de céu azul com a alvura da neve prende os olhos do forasteiro. O sol dessa época permite a você caminhar tranquilamente mesmo em temperaturas abaixo de zero. A ausência de vento mitiga o frio. Grande mas não enorme, com seus 4 milhões de habitantes, é uma cidade belíssima.
Há vantagens e desvantagens em “Estados-Babá”, e é uma discussão antiga. Pessoalmente, considero os prós acima dos contras. A principal desvantagem é que você pode ter pouco estímulo para procurar trabalho se, desempregado, receber um mensalão do governo. Isso em geral é combatido com uma fiscalização rigorosa para verificar se a pessoa está tentando mesmo se reempregar. A maior vantagem é que, como cidadão, você está num lugar em que o Estado de fato zela por você. Você não vai ficar horas numa fila de hospital, nem deixar de encontrar uma vaga numa boa escola para seu filho, e se precisar de remédios caros os terá de graça.
O cuidado com os cidadãos inclui a poluição. As autoridades querem que as pessoas respirem um ar o mais puro possível. Uma das formas achadas para promover ambientes ecologicamente mais saudáveis foi criar um prêmio que divulgue as melhores práticas. A cada ano, desde 2009, são escolhidas duas Capitais Verdes na Europa. As cidades se inscrevem, um júri avalia, e duas são premiadas. Estolcomo e Hamburgo foram campeãs na primeira edição.
O vídeo que abre este texto mostra as finalistas. Ele é, em si, um pequeno manual de boas práticas.
Ser a Capital do Verde traz muita coisa boa para a cidade. Seus habitantes se orgulham de onde moram. O turismo aumenta. Autoridades do mundo todo vão querer ver de perto o que está sendo feito de inovador.
O Brasil é grande como um continente, e tem que acelerar nas questões do meio-ambiente. Um pequeno gesto que pode fazer diferença seria criar, como na Europa, uma disputa pelo título de Capital Verde. E trombetear, como está se fazendo na Europa.
Gostaria muito de ver um vídeo em que, em vez de cidades européias, estivessem cidades brasileiras dedicadas a oferecer um ar melhor para seus habitantes.
Observar boas práticas, em tudo, encurta o caminho e diminui os erros. Além de ser um exercício de humildade num mundo tão egomaníaco, repleto de Césares, Napoleões e Cleópatras imaginários.
Meu palpite sobre uma eventual Capital Verde do Brasil?
São Paulo, minha cidade tão amada que dói, com sua velocidade, logo levaria o título.