
É falso o áudio que circula nas redes sociais atribuindo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) xingamentos contra a empresária Roberta Luchsinger após uma entrevista à CNN Brasil. Segundo checagem publicada pelo Aos Fatos nesta quinta-feira (22), análises forenses identificaram indícios de manipulação por inteligência artificial, e um laudo classificou a gravação como falsificação por síntese vocal.
O conteúdo simula uma reação irritada do presidente à entrevista e utiliza uma voz semelhante à dele para dirigir ofensas à empresária. Até a tarde desta quinta, publicações com o material enganoso reuniam ao menos 100 mil visualizações no X e 2.500 interações no Instagram e no Facebook. A gravação também circula no WhatsApp, onde seu alcance não pôde ser medido.
A pedido da checagem, o Núcleo de Computação Forense Aplicada (NCFA), vinculado à USP e à Universidade Federal do ABC, comparou frequências e padrões de ressonância do áudio com uma fala autêntica de Lula. O exame identificou diferenças incompatíveis com os padrões vocais do presidente. O responsável pela análise é Mário Gazziro, professor de engenharia de informação da UFABC e instrutor de computação forense na USP.

Especialistas do projeto de resposta a deepfakes da organização WITNESS também encontraram evidências de produção ou manipulação por IA. A equipe comparou o material com gravações verdadeiras de Lula, incluindo amostras com qualidade semelhante à de uma ligação telefônica. Os pesquisadores ressalvaram, porém, que a pequena quantidade de amostras limita a confiança estatística do teste e que uma segunda análise das características sonoras não encontrou sinais conclusivos de manipulação.
Consultada na apuração, a doutora em Filologia Clarice Assalim, integrante do Conselho Nacional de Perícia Judicial, identificou problemas na entonação e no ritmo da gravação. Segundo ela, faltam variações características da fala do presidente. Assalim esclareceu que sua avaliação foi realizada sem auxílio de software pericial.
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência também negou a autenticidade do áudio. A checagem buscou registros das supostas declarações nos canais oficiais da CNN Brasil e em outras fontes confiáveis, mas não encontrou a fala atribuída a Lula.
A entrevista utilizada como contexto para a falsificação foi exibida em 17 de outubro. Na ocasião, Roberta afirmou que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, participava de reuniões com ministros e acusou o presidente de mentir ao negar os encontros. A Secom rebateu as declarações e afirmou que Lula nunca recebeu demandas da empresária.