É hora de os estudantes irem para as ruas. Por Ricardo Miranda

Estudantes protestam no Rio. (Reprodução: Facebook)

Publicado originalmente no blog do autor

POR RICARDO MIRANDA

“A economia está ferida, pois que morra!”
Uma das frases irreverentes e provocadoras, de forte teor surrealista, pichadas nos muros de Paris, em maio de 1968, dirigidas não só ao poder, aos patrões e à polícia -mas também aos estudantes burgueses

O pavio está aceso. Resta explodir tudo ao final do rastilho. Se a pólvora não estiver batizada. É difícil dizer a essa altura o que vai acontecer no dia 15 de maio – esse país é imprevisível até no que deveria ser previsível. Com a oposição combalida e, para variar, dividida, pendurada em meia dúzia de lideranças, como Guilherme Boulos, Ciro Gomes e Fernando Haddad, nenhuma delas capaz de mobilizar massas – apesar de há sete meses o candidato do PT ter corrido o país, na aba da memória de Lula, isso não fez dele um líder nacional -, e com as grandes centrais quase inertes – o 1º de março foi a primeira grande chance perdida -, somente movimentos estudantis de rua, numerosos e persistentes, podem desestabilizar esse governo que empurra o país para um enorme retrocesso político, econômico e social. O mesmo movimento que foi foco da resistência ao regime militar no Brasil. É hora de sair às ruas no dia 15 de março contra o massacre da educação – e do país. O manual de maio 68, na França ensinou o caminho. Há 51 anos, o reitor da Sorbonne, em Paris, chamou a polícia para interromper uma assembleia estudantil e expulsar os estudantes. As manifestações ampliaram-se, centenas de estudantes foram presos e surgiram as primeiras barricadas. “Libérez nos camarades!” A revolta ampliou-se de universidades para fábricas, os protestos radicalizaram-se, com greves e múltiplas concentrações e manifestações, a França e o mundo nunca mais foram os mesmos. Como repetir, na próxima quarta-feira, na Candelária, na Paulista, na Esplanada dos Ministérios, na Esquina Democrática de Porto Alegre, na Praça Sete de Setembro, em Beagá, na Boca Maldita, em Curitiba, no Marco Zero do Recife, no Farol da Barra ou na Esquina da Alegria, em Rio Branco, o que se iniciou em Sorbonne, Nanterre e Belas Artes e nos arredores do Teatro Odéon e dos Boulevards Saint-Michel e Saint-Germain, em 68, é a pergunta que vale três chocolatinhos e meio.

Não estamos falando de junho de 2013 e da revolta apropriada por black blocs e traíras como o MBL, que serviu para emparedar Dilma Rousseff, embora seu alvo maior fosse o PT e, em última instância, Lula. Não por acaso os patos da Fiesp logo foram grasnar alegremente entre a multidão de verde e amarelo, e financiar quem estava no palanque, porque era precisava dar direção. A direita deu a direção. Estamos falando da chance de uma revolta real, contra o atual estado de coisas, contra Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub e a República de Gileade, cujo ponto de inflexão pode – e deve – ser as manifestações marcadas para 15 de maio, quando movimentos sindicais e estudantis vão se manifestar contra os cortes nas universidades federais – o aviltante congelamento de 30% no orçamento de 2019 para todas as universidades e institutos federais. A afronta contra o ensino, que passou do ideológico – militarização das escolas, escolas sem partido, universidades sem sociologia e filosofia, bem ao estilo de uma teonomia cristã militar – para o financeiro, criou o ambiente perfeito para a reação – pelo menos em tese. Os golpes contra áreas estratégicas, como educação, ciência e tecnologia, deveriam mexer com os brios dos movimentos sociais – nesse caso, capitaneados pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e entidades correlatas. Infelizmente, devo ponderar, não é o que se tem visto. Mas torço para que, dessa vez, não acendam só velas contra o vento.

Atos isolados não resolvem mais. A catatonia já permitiu o impeachment de Dilma Rousseff e a continuidade do governo Michel Temer e da quadrilha do MDB, emplacando a reforma trabalhista. É preciso um incêndio que tire o país real do marasmo, do comodismo e da apoplexia. Como decifrou a Folha de S.Paulo neste domingo, o cenário criado pelo contingenciamento de verbas nas universidades brasileiras só se compara ao que havia nos tempos de hiperinflação dos anos 1980 e 1990. Projetos sobre o impacto dos desastres de Mariana e Brumadinho na fauna do rio Doce, para ficar no inominável, foram paralisados. O CNPq, o histórico Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, e a Capes, a brava Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao Ministério da Educação, foram destroçadas. Mais de 40% do orçamento para pesquisas foi contingenciado, e quase 5 mil bolsas de mestrado e doutorado da Capes, consideradas “ociosas”, foram congeladas sem aviso prévio. Se isso não for suficiente para empurrar estudantes para as ruas, nada mais será. E eles assistirão o fechamento – literal – de universidades, centros de pesquisa, institutos de referência e o fim da ciência e tecnologia no país – na prática.

Bolsonaro anteviu uma “tsunami” esta semana. Não se sabe bem ao que biroliro se referia, já que o presidente não é conhecido por se expressar bem, e faltaram as legendas, geralmente dadas pelo vice-presidente Hamilton Mourão, calado por Carlos Bolsonaro e Olavo de Carvalho. Tsunami é uma expressão forte, e, exceto pelas manifestações, não há nada no horizonte que aponte algo dessas proporções vindo por aí. Mas é mais provável que Bolsonaro, que não acredita na capacidade de mobilização da sociedade, tenha falado ao Congresso, em tom de ameaça, depois de outra semana de derrotas, com sua base gelatinosa assistindo centrão e oposição se unirem na comissão mista que analisa a reforma administrativa e aprovarem a retirada do Coaf – órgão de inteligência financeira especializado em prevenir e combater crimes como lavagem de dinheiro – das mãos do ministro da Justiça, Sérgio “Conge” Moro. O Congresso também pôs em xeque o decreto de Bolsonaro que ampliou as autorizações de porte de armas para 20 categorias. Pareceres técnicos da Câmara e do Senado dizem que o bangue-bangue proposto por ele é inconstitucional. Fere até o Estatuto do Desarmamento, que Bolsonaro ainda não conseguiu revogar.

Mas bem que a tsunami poderia mesmo vir das ruas, varrendo esse governo politicamente desastroso, ideologicamente fascista e socialmente preconceituoso, elitista e destrutivo. Saberemos em breve se as manifestações explodiram – ou se caíram no vazio, morreram na praia, sumiram no fog soprado pelos aquários das redações, com suas ordens, já dadas, para que se esvazie a todo custo os movimentos. Restam as redes sociais – as mesmas que até agora tem sido usadas, com mais competência, pelo governo. Ouviram Mídia Ninja, TV dos Trabalhadores, canais e youtubers da resistência? Hoje, infelizmente, tendo a ser pessimista. Não vejo as consciências serem sacudidas, os brios mexidos, o inconformismo campeando por universidades e fábricas, força essencial para nos tirar da matrix. Você sente cheiro de incêndio? Nem eu. Mas posso estar subestimando nossa capacidade de, ainda, saber marchar pelas escolas, ruas, campos, construções, caminhando e cantando e seguindo a canção.

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