“É imperativo mudar”: argentinos contam ao DCM o que esperam do domingo de eleição. Por Maringoni, de Buenos Aires

Garis de Buenos Aires buscam no lixo objetos que possam vender (FOTOS GILBERTO MARINGONI)

Esta matéria foi financiada através de crowdfunding do DCM

CHILE E ARGENTINA concentram as esperanças de transformações num continente em crise. As manifestações populares estão exuberantes do outro lado da cordilheira dos Andes e seu complemento está às margens do Prata. É aqui que a mudança de governo pode se dar de forma mais rápida neste domingo, 27.

A imprensa – em especial a Folha de S. Paulo – propaga um boato de puro terrorismo político. Estaria havendo uma fuga acelerada de dólares diante da iminente vitória da centroesquerda argentina.

Na sexta, 25, a moeda estadunidense passou de 62 para 65 pesos, algo como 3% num único dia. É expressivo, mas nada fora das oscilações de um país em processo de retração econômica. Não há corrida aos bancos ou às casas de câmbio, como no auge da crise de 2001.

A poucas horas desse pleito decisivo, ouvimos moradores de Buenos Aires, de diferentes estratos sociais, com uma pergunta básica: o que mudará no domingo? Selecionamos onze depoimentos, que seguem abaixo.

GERSON GONZÁLES tem 35 anos e é encanador. Vive de serviços temporários e acha que “ganhe quem ganhar, nada vai mudar”. Esse parece ser um mantra em boa parte de uma opinião pública resignada após quatro anos de macrismo acelerado, com sua onda de privatizações, reformas e ajustes econômicos. “Se ganha Macri”, diz ele, “viramos um Chile”. E se ganha Cristina?

Gerson Gonzales, encanador

A maior parte das pessoas com quem conversei ao longo do dia se refere à chapa peronista como “a de Cristina”, ou a “Fernández y Fernández”, em alusão a postulação de Alberto Fernández e Cristina Fernández Kirchner. Sim, e se ganha Cristina?

Gérson faz uma volta. “Macri piorou tudo; há pouco trabalho e as coisas nos mercados aumentam de preço todos os dias”. Nesse ponto, ele para e exclama, seco: “Voto em Cristina!”. E segue: “Gosto dela, comíamos mais e melhor. Agora há fome nas províncias”.

A fala direta, sem paixão mas decidida, parece sintetizar um padrão nos eleitores da Frente de Todos para as eleições de domingo: um olho na situação econômica e outro num passado que não foi glorioso, mas gerava esperanças de alguma saída para as camadas pobres.

HECTOR ECHEGARAY, 65, é aposentado. Acha que domingo o país abre caminho para a mudança. Isso, se Macri ganhar, sublinha. “Ele fez muitas obras de infraestrutura, estradas e investiu na construção civil”, avalia. Reconhece os problemas sociais e o aprofundamento da crise econômica.

Hector Echagaray, aposentado

“Mas a pobreza se expande”, opina, “por culpa dos próprios pobres, com cinco ou seis filhos, que seguem sendo pobres”. Em seu raciocínio, não havendo emprego, há um “efeito multiplicador” natural da pobreza. Não é culpa de Macri, de acordo com Hector.

E se Alberto Fernández vencer? “Cristina e sua turma voltarão a roubar, os impostos aumentarão e muitas fábricas fecharão as portas”.

LIZA GODOY É UMA ADVOGADA falante e sorridente. É paraguaia e vive em Buenos Aires há 26 anos. “Senti a crise de 2000, que foi muito forte. Mas agora está pior, muito pior”, avalia. Em suas palavras, a miséria aumentou muito, em especial no último ano.

Liza Godoy, advogada

“Você vê nas ruas, nas esquinas, nos coletivos”, destaca. “Macri piorou tudo!”. Liza não tem ilusões. “Ninguém fará milagres, não se altera essa situação com passe de mágica”. Sobre as acusações disseminadas pela mídia, ela opina: “Dizem que os Kirchners roubaram, mas o fato é que a vida melhorou em seus governos”. Isso define seu voto por “Cristina”.

CARLOS GENARO GIMENEZ puxa a carteira de identidade de uma sacola que tem à frente. “Confira aí, 59 anos”. Sentado na calçada da avenida Santa Fé, no centro da cidade, pede esmolas aos passantes. É surpreendentemente articulado.

Carlos Genaro Gimenez, ex-motorista

“Conheço o Brasil melhor do que você. Já dirigi caminhão do Rio Grande do Sul até o Amazonas”, explica em portunhol esse ex-motorista do Circo Tihanny, que fazia a alegria da garotada nos anos 1960-80.

“Fui atropelado há cinco anos, só ando de muletas e não pude mais trabalhar”, conta inconformado. “Eleições? Voto Cristina sem pensar!”.

Carlos dispara com certa raiva: “Macri não fez nada além de aumentar preços e diminuir salários. Com isso, a pobreza cresceu”. Carlos mora em Bella Vista, a uma hora do centro, na casa de um amigo. Mesmo em sua condição, não titubeia: “A vida era melhor. Agora as fábricas fecham e a dívida do país atinge as alturas”. E se despede com um “valeu, cara”!

IRINA VIÑALES tem 29 anos e é atendente do Mc Donald’s. “Quero que Macri não ganhe”, fala de saída. “O país piorou e não há trabalho”, exclama.

“O que eu quero? Que se congele o dólar, pois isso faz todos os preços aumentarem”. Irina, não tem planos de sair do país e se declara otimista com o futuro. “Voto na Frente de Esquerda”, coalizão de partidos socialistas. Para ela, nem Macri e nem Cristina são próximos dos de baixo.

Empresa fechada no centro da capital argentina

“VIVI 15 ANOS NA VENEZUELA e percebi que esse modelo bolivariano e socialista não funciona”. Quem diz isso é o alto e corpulento Brian Sotello, 41 anos, técnico em celulares. “Está tudo parado na América Latina, tudo”. Brian não quer nem ouvir falar de Cristiona Kirchner que, segundo ele, roubou demais. Fala longamente de como Chávez e Maduro arrasaram o lugar de onde voltou há três anos. Bolivarianismo não dá certo, explica. Vota em Macri, convicto.

CAROLINA FIGUEIROA é auxiliar administrativa de uma empresa de contabilidade no centro. Vai se mudar para a Bahia, onde mora o noivo. “Aqui não há praias, lá é bem melhor”. Largará o emprego no final do ano, sem arrependimento algum. “Há muito descontentamento social com Macri. Mas tampouco voto em Cristina”, assegura.

Carolina Figueiroa, funcionária administrativa

Segundo ela, os maiores problemas do país são saúde, educação e aumento da pobreza. Ela conta ter visto centenas de pessoas serem demitidas nos últimos dois anos. Escolherá a Frente de Esquerda.

ALBERTO SÁNCHEZ, 58, é um sujeito sorridente e simpático. Foi motorista de ônibus em Buenos Aires há 30 anos e agora é vendedor ambulante de quinquilharias. É categórico: “Vença quem vencer, nada muda”. Sua reclamação parece vir da boca de outros: Macri aumentou preços e reduziu salários”.

Alberto Sanchez, ambulante

Hoje importamos tudo, afirma enquanto abre sua bolsa, repleta de lanternas chinesas. “Hoje importamos tudo”. Mesmo falando inicialmente que tanto faz quem seja o eleito, Alberto diz preferir Maurício Macri. O problema, segundo ele, é que quatro anos é pouco para mudar as coisas. “Se lhe dermos mais tempo, fará o país melhorar”.

HAYDÉE LEDESMA, 62, trabalha como auxiliar de portaria em um edifício do bairro de Vila Urquiza, zona de classe média. Vive a uma hora e meia de ônibus de seu trabalho. Como outros, ela também avalia que pouco importa quem será o vitorioso. “Nada irá mudar”, anuncia.

E completa: “Mas é necessário mudar”. Haydée reclama que o aluguel come quase todo o salário. Seu marido não tem emprego fixo e o filho de 29 anos foi demitido da empresa na qual trabalhava havia oito.

“Agora é entregador de comida com a moto”. Ela se desespera com o trânsito, os roubos e o desperdício de capacidade. “Ele se formou no ensino médio e poderia ser aproveitado em atividades mais especializadas, mas não há emprego”, conta.

Haydée já definiu o voto. “Quero Cristina. Com ela vivíamos melhor”.

LUCIANO MATHIAS é um rapaz alto e magro de 28 anos e exibe certo ar intelectual. Tem 21 anos, estuda e trabalha na área de Comunicação Social. Quer ser jornalista. É um tanto desconfiado no início da conversa, mas logo mostra um raciocínio rápido.

Luciano Mathias, estudante de Comunicação

Repete o que se mostra quase um mantra: “Ganhe quem ganhe, nada vai mudar”. O principal problema do país, segundo ele, está na economia. “Os preços subiram muito com as privatizações. As empresas estrangeiras roubaram muito”. Não decidiu o voto, mas Macri está fora de cogitação.

PABLO BRUNO, de 38 anos, é um executivo do Banco da Galícia. Volta para casa de gravata com o paletó nos braços. Conta assistir a carteira de crédito do banco se reduzir. “Eu vejo isso, as empresas estão demitindo funcionários e fechando as portas”.

Não é acidente, em suas palavras. “É um plano”. Alberto Fernández e Cristina Kirchner, segundo ele, conseguiram unificar o peronismo, algo que deveria ter sido feito em 2015.

“Voto em Cristina, quero outro modelo de país”, sentencia. Pablo conta que não está preocupado apenas com sua condição social. “É todo o país que mergulha na pobreza. Quero viver numa Argentina melhor”.

Pablo Bruno, executivo de banco

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