É inútil apenas provar as mentiras. O bolsonarismo sobrevive à revelia dos fatos. Por Tiago Barbosa

POR TIAGO BARBOSA
Não adianta só trucidar jornalisticamente o autor dos ataques sórdidos e, por óbvio, mentirosos à competente repórter da Folha na CPI das Fake News.
 
Os fantoches hipotecam a voz, o corpo e as atitudes a serviço de uma ideologia sob a qual desfrutam da admiração e solidariedade dos pares canalhas.
 
Os porta-vozes da estupidez vagueiam como zumbis à deriva do tempo, da lógica e da história, entorpecidos pela desumanidade naturalizada anos a fio pelo pacto da mídia com o absurdo em nome do ódio a governos populares.
 
O esforço de esmiuçar os fatos e destroçar a versão escabrosa de quem é adestrado para mentir e insultar somente tem força em sociedades ancoradas no valor da verdade e intransigente com a violação dos direitos humanos.
 
Mas o Brasil adubado com o bolsonarismo submergiu à fossa da barbárie, inverteu os polos civilizatórios e ressignificou a razão – pelo menos para o rebanho seduzido pelo badalar do chocalho presidencial.
 
É inútil apenas provar as mentiras. O bolsonarismo sobrevive à revelia dos fatos.
 
O desmascaramento jornalístico não soluciona as fake news. Cria mártires da idiotia. 
 
O paroxismo da degradação representado pela ascensão dos bolsonaros exige radicalizar a reação contra as estultices do clã e dos asseclas investidos ou não de cargos públicos.
 
É preciso subir o tom e usar as palavras adequadas para denunciar arbitrariedades diárias vomitadas pelo pai, pelos filhos e pela horda de seguidores imbecilizados.
 
Não são “polêmicas” as declarações marcadas por preconceitos, ofensas e incitação ao crime – e elas requerem a cobrança por manifestação imediata de órgãos de controle e de fiscalização das leis, a resposta contundente de organizações da sociedade civil e a responsabilização nominal dos omissos.
 
É urgente expor a conexão entre a (má) conduta de Bolsonaro e o comportamento dos apoiadores para pendurar no governo a culpa pela explosão de violência e intolerância do cidadão comum. 
 
Mas nenhum combate é válido enquanto durar a subserviência à pauta econômica do governo, o dízimo de hipocrisia recolhido pelo jornalismo à fantasia de separar as duas faces da mesma maldade.
 
A agenda neoliberal executa com extinção de direitos e opressão social o mesmo que o obscurantismo do governo faz com acintes verbais e medidas discriminatórias.
 
A mídia ajoelhada diante da pauta financeira legitima as ações do bolsonarismo e reduz as trevas ideológicas a mero desvio de conduta e pedágio moral de quem está “na direção correta” – o delírio bajulatório usado pela Folha para definir a as manobras econômicas de um presidente invariavelmente desrespeitoso com os repórteres do próprio jornal e de outros veículos.
 
As loas à privatização devem neutralizar a banana aos repórteres na saída do Palácio? Os aplausos empresariais à reforma da previdência indultam a ofensa à mãe de um jornalista? A asfixia do investimento público valida o cerceamento à liberdade de imprensa?  
 
O avanço galopante da truculência situa o jornalismo brasileiro na encruzilhada definitiva entre manter o endosso à selvageria do deus mercado no governo às custas da dignidade nacional e romper de vez com o bolsonarismo em favor da sobrevivência civilizatória do país. 
 
E essa, mais uma vez, não é uma escolha difícil.

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