“É normal querer matar todos os seus colegas de trabalho?”

Atualizado em 4 de setembro de 2012 às 9:46

Pouca gente prestou atenção para um detalhe importante da notícia sobre o cara de Nova Jersey que atirou em funcionários da empresa onde trabalhava e a seguir se suicidou. Era uma tragédia anunciada. Em 2009 Terence Tyler havia postado no seu twitter o seguinte: “É normal você querer matar TODOS os seus colegas de trabalho?” Agora me diga: quanta gente, depois de levar rasteirada de maus colegas, já não pensou, falou, e até escreveu numa dessas redes sociais da vida, algo parecido? A tragédia da última sexta-feira de agosto desse ano, dentro de um supermercado de subúrbio para onde o rapaz fora contratado há duas semanas, deve ser vista como uma dessas ameaças que pairam todo dia no ar, mas que infelizmente se cumpriu.

O crime tinha todos os componentes para ocorrer. O atirador era um ex-fuzileiro naval que, ao invés de travar batalha com sua tropa em algum lugar, lutava contra sua própria depressão, ainda a serviço da Marinha americana. Além de dispensado, o que nessa profissão é muito humilhante, jamais se recuperou da perda da mãe. Chama a atenção que tudo ocorreu de madrugada, quando não havia clientes no supermercado, mas colegas que trabalhavam. Ou seja, foge ao modelo clássico de vingança contra o mundo, e que se fosse outro maluco se voltaria provavelmente contra a clientela. Não, a ira, em forma de 16 disparos, teve destino certo: cinco colegas, dois deles mortos.

No mundo real da vida corporativa, as pessoas podem não chegar às vias de fato e matar. Mas fazem algo parecido, de forma socialmente aceita e por vezes estimulada pela concorrência acirrada das empresas. Prejudicam colegas, demitem subordinados, destroem vidas profissionais, pessoais e familiares em troca de um ser abstrato chamado de carreira. Algo que se desfaz como bolha de sabão no day after de uma demissão ou aposentadoria.

Na falsa estética das corporações, o verniz do relacionamento sob a implacável mas sutil chibata do RH fica a impressão para olhos mal treinados que existe um ótimo clima organizacional. Mas a verdade é que prevalece a lei do cão. Grosserias no trato, ironias em reuniões, desrespeito ao subordinado no exercício gratuito do poder, fofocas maldosas são apenas alguns sintomas mas que juntos são capazes de formar um mosaico de alto poder destrutivo. Até que um dia o vulcão explode. Seja de forma figurativa, via demissões ou doenças da vítima, ou por vezes da maneira mais nua e crua, como o episódio do fuzileiro americano. Eis aí uma triste fábula de uma realidade que todos nós já enfrentamos na vida corporativa, mas que preferimos fingir que nunca existiu.

Terence Tyler, o ex-fuzileiro naval que executou ex-companheiros num supermercado depois de tuitar suas intenções