“É o pior de todos os massacres”, diz a professora Arlene Clemesha sobre Israel e Palestina

Arlene Elizabeth Clemesha concedeu entrevista ao DCM

Atualizado em 17 de outubro de 2023 às 8:58
Arlene Clemesha, da USP. Foto: Reprodução/DCMTV/YouTube
Arlene Clemesha, da USP. Foto: Reprodução/DCMTV/YouTube

Arlene Elizabeth Clemesha é professora doutora no Curso de Árabe do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. A pesquisadora tem Doutorado (2003) e Mestrado (1998) pelo programa de pós-graduação em História Econômica da USP.

Ela atua hoje no conselho do Common Action Forum (Madri) e colabora com a organização Al Sharq, baseada em Istambul. Sua pesquisa está centrada na História Árabe contemporânea, Palestina, questão judaica e os conflitos no Oriente Médio.

Arlene acredita que o conflito requer um olhar em suas origens e que Israel e Palestina estão em um embate “existencial”. Ela concedeu entrevista ao jornalista Gilberto Maringoni na Superlive de Domingo do DCM.

Confira os principais trechos.

“Ou eu, ou você”

O que está se sucedendo agora está adquirindo aspectos de uma questão existencial. Ou sou eu ou é você, né? É uma guerra e um exército deveria seguir normas de guerra, o que também é um pouco absurdo para a gente pensar que existem leis para guerra.

Porque a guerra é uma situação de violência que é tão extrema. Mas essas leis existem e têm o objetivo de proteger a população civil e essas leis vêm de 1949. O primeiro momento em que elas foram estabelecidas foram nas Convenções de Genebra.

A guerra que está se sucedendo em Israel e a quantidade e a dimensão da destruição parecem ter aspectos de um conflito existencial. O ataque do Hamas massacrando pessoas em suas casas também tem aspectos de um uma questão existencial.

Só que a proporção é muito menor. O poder mortífero da ação do Hamas se limitou ali. Foi liquidado e repelido. Foi uma enorme brecha num sistema de segurança do Exército, das forças de vigilância e dos serviços secretos.

Muitos achavam que eram invencíveis antes do ataque. Isso criou um questionamento muito grande latente na sociedade israelense. Em algum momento isso vai ser recolocado.

Agora parece ser uma empreitada para aniquilar a Faixa de Gaza. Só que Gaza tem 2 milhões e 300 mil habitantes. E esse é o quinto massacre.

É o pior de todos. Mas palestinos sofreram outros massacres com mil mortos. 600 mortos. Foram quatro ataques de 2006 até hoje.

Com os métodos adotados, o clima gerado adquire proporções assustadoras.

“Há todos os elementos para essa guerra ser de longa duração”

A aparente solução do problema é o projeto para criação de um Estado palestino. O Brasil reconheceu a Palestina, mas foi um ato político, como a maioria dos países do mundo fez.

Porque, na prática, o Estado nunca foi criado. O conflito foi internalizado a partir da década de 80, vindo desde da Guerra do Yom Kippur, a última regional, e as intifadas.

Hoje se consolidou isso de que a Palestina é um problema interno e para o israelense é quase um não problema. Porque a construção de um muro de separação criou a impressão de que os palestinos deixaram de de ser uma questão para Israel, para a população israelense.

A Palestina está atrás do muro. Judeu vai direto para Tel Aviv ou alguma outra grande cidade sem ver um árabe pela frente, um palestino pela frente.

Ao ver esse conflito, a primeira reação é achar que os palestinos não vão ter quem os apoie. A ONU precisa fazer alguma coisa. A comunidade internacional precisa colocar um fim nisso. A gente começa a ver sinais de que pode não ser assim que isso vai se desenrolar.

Hezbollah agiu em solidariedade com o lançamento de foguetes em solidariedade ao Hamas. E não é só uma mera solidariedade. É porque com essa guerra é tão total contra a Faixa de Gaza, é tão aniquiladora, junto dessa promessa que Netanyahu seus generais fizeram para a população israelense de que vão liquidar o Hamas da face da Terra.

A gente sabe que não é possível fazer isso. Você pode matar uma geração de combatentes, porque vai vir outra e muitas vezes mais ainda castigados pela violência. Pessoas que trarão repercussões ainda piores na geração de violência.

Veja o Hezbollah. Quando eles enxergam que Israel realiza essa guerra de aniquilação contra o Hamas, eles entendem que o próximo alvo serão eles se Israel for bem-sucedido e o mundo não fizer nada.

Vamos liquidar o Hezbollah que está ali incomodando faz muito tempo? E que já expulsou Israel do Líbano no ano 2000? E que já derrotou uma nova invasão no ano 2006?

Hezbollah, quando entra nesse conflito, vai com a ideia de ajudar o Hamas a resistir ao que está acontecendo. 

Nessa guerra, a hora que eles se envolvem, Israel realizou alguns bombardeios na Síria. Um envolvimento na guerra da Síria, de potências regionais e internacionais, o papel do Irã, que por mais que não tenha tido nenhum envolvimento nesse ataque do Hamas, pode trazer um socorro indireto.

As questões envolvendo a China têm todos os elementos para essa guerra transbordar e ser de longa duração. 

Veja a entrevista na íntegra.

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