É preciso nacionalizar as eleições no Congresso. Por Gustavo Conde

Congresso Nacional – AFP Photo/Pedro Ladeira

De 5 anos para cá, o Brasil mergulhou na pobreza extrema, não acusou uma cifra de crescimento econômico, estabeleceu recorde de falências, triplicou a taxa de desemprego e liderou a pior resposta mundial à pandemia (8 em cada 10 brasileiros dizem ter pego covid ou ter conhecido alguém que pegou).

Os jornalões apresentam esses dados quase toda semana, mas omitem o “mergulho”, enunciando que a catástrofe é referente à última década – uma fake news olímpica, porque de 2010 a 2015, mesmo com baixo crescimento, nós ainda apresentávamos evolução em todos os indicadores sociais.

O jornal Folha de S. Paulo crava um título de manchete digno de mídia alternativa: “Brasil empobrece e fica mais distante do mundo”.

Bem diferente daquele ciclo de matérias sobre a “retomada econômica”, sob Temer e, depois, sob Bolsonaro. Vocês lembram? Um otimismo editorial tosco que serviu para manter muita gente sob o cabresto ilusório de que “tiramos o PT e tudo melhorou”.

Aliás, esse é o ponto.

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Nem com todas as estatísticas do mundo, a imprensa brasileira fará a autocrítica do século (que a espera sentada): nos governos do PT, o país tinha comando e tinha qualidade no comando.

É até covardia: pegue-se todos os números econômicos dos governos Lula e Dilma e compare-se com quaisquer outros governos, Itamar, FHC, Temer e Bolsonaro: é goleada atrás de goleada.

Era isso que explicava as 4 vitórias seguidas do Partido dos Trabalhadores no âmbito nacional. Para os que acham e gostam de achar que o eleitor brasileiro é “burro”, eis uma dura realidade.

O que explica a eleição de Bolsonaro, então, não é mesmo? – perguntariam os céticos.

Precisa desenhar? Primeiro, o golpe de 2016, que estilhaça toda nossa institucionalidade. Segundo, a prisão de Lula – e, desde sempre, a atuação temerária e antidemocrática da Rede Globo de Televisão.

E, pasmem: quase perderam.

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Em tempo: muito se prognostica por aí com base satírica. Peço vênia para prognosticar com base empírica: 2021 vai ser um ano bom para o PT.

Não temos eleições, os governantes de turno terão de mostrar algum serviço e as estatísticas catastróficas do país terão de ser obrigatoriamente mostradas pelo jornalismo convencional.

O caos sanitário e o respectivo desastre já comprovado na vacinação em massa irão, a duras penas, começar a erodir a nossa assombrosa paciência popular – oriunda de nossa tradição secular de escravidão institucionalizada.

200 mil mortes – aparentemente, até aqui – diluem-se facilmente no universo moral massacrado de 2010 milhões de brasileiros com medo, tutelados por uma opinião pública omissa e covarde.

Mas, fome, desemprego, caos social, violência, desabastecimento, apagões e mutação viral podem tirar a classe média dos sofás esterilizados e a massa trabalhadora da mordaça midiático-policial (se reclamar, leva tiro e é cancelado).

Se eu estou comemorando esse cenário tenebroso?

Sim, estou.

Porque se eu comemorasse a manutenção assistida desta carnificina social silenciada pela mídia, aí, sim, eu estaria sendo desumano e hipócrita.

Reitero: 2021 será o ano decisivo para que tiremos Lula e o PT do ‘cercadinho midiático’ imposto por nossas elites: comparativamente, não há campo político neste país que ‘pareie’ com o Partido dos trabalhadores no que diz respeito à governança pública e ao respeito intransigente pela dignidade humana.

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Uma advertência se faz necessária, no entanto: não será recomendável para os setores autoidentificados como democráticos prosseguirem ‘terceirizando a culpa’ e/ou continuar ‘rifando a responsabilidade’.

Muitos de nós gostaríamos que o PT resolvesse tudo sozinho, que Lula viesse montado em seu cavalo branco e introduzisse sua adaga incandescente no bucho apodrecido de Sua Excelência Rastejante, o Verme.

Lamento, mas isso não vai acontecer.

Primeiro, porque Lula não é adepto da violência (segundo, porque se ele tivesse que montar em algum quadrúpede, não seria em um cavalo branco, mas em um jegue forte, soberano e teimoso).

Traduzindo o contexto: passou da hora de a população brasileira que se dá o respeito tomar as rédeas do país. Nós precisamos re-legitimar o PT no circuito da representação popular – não apenas ficar criticando e cobrando. Nós devemos isso ao PT.

É hora, portanto, de inverter o processo.

É a decantada ‘inversão de prioridades’ do padrão PT de governança pública, mas agora, realizado por nossa residual – se é que ainda existe – consciência política. Ou: não é o PT que tem de ‘resolver a parada’, mas nós é que temos de devolver ao PT as condições para que ele possa tentar mais uma vez ‘resolver a parada’.

Isso inclui o desenho recém estabelecido pelo PT na articulação pela presidência da Câmara.

Aliar-se ao “bloco de Rodrigo Maia”- sic – é uma espécie de aceno do PT aos 558.088.000 de votos majoritários que obteve ao longo dos últimos 31 anos (soma dos votos de Lula, Dilma e Haddad). Significa: estamos de volta ao jogo – e não jogamos sozinhos.

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Há, no entanto, um adendo semântico a ser postulado. O nome do bloco não é “bloco do Rodrigo Maia”, como nossa imprensa preguiçosa faz acreditar. O nome é: “Bloco Anti-Bolsonaro”, com maiúsculas.

(Se se nomear errado, já se começa mal).

O detalhe importante que este bloco enseja é: passou da hora de o PT ter novamente a presidência da Câmara.

E, por mais que as eleições no Congresso sejam sui generis e atendam a uma lógica específica de correlação de forças políticas de bastidor, ela também é o desdobramento direto das eleições legislativas soberanas realizadas pelo eleitor brasileiro.

Ou seja: também passou da hora de as forças ditas progressistas saírem de suas posições de retaguarda e de medo e avançarem com ímpeto para a politização e nacionalização emergenciais do debate público, incluindo o “convescote” habitual das eleições no Congresso.

A imprensa e o próprio Rodrigo Maia querem uma eleição “asséptica”, indolor e sub-reptícia, que atenda aos interesses da manutenção de turno da correlação de forças: mais centro (mais contemporização) e menos polarização.

Se a esquerda aceitar esse jogo, levará mais uma surra do sistema – e restará na sarjeta, mais uma vez, chupando o pirulito amargo dos adultos inocentes.

A opção de fazer tudo à maneira das elites para não contrariá-la (circunscrever as eleições no Congresso ao debate interno do Congresso) já se demonstrou um fracasso desastroso. A prática é, além de tudo, canalha – não é secundário dar os nomes aos bois coronelistas da política conservadora brasileira.

É preciso, portanto, nacionalizar as eleições no Congresso para que a população possa participar do processo. Fugir disso é ser antidemocrático e aliado do sistema.

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Um dos corolários máximos da prática política e que ela não se limita a repetir fórmulas feitas. Para se ganhar espaço, é preciso ter capacidade de improvisação e atrevimento.

Nós estamos com déficit de bons improvisadores, na semi ausência de Lula deste tabuleiro infernal.

Rodrigo Maia e seu entorno estão claramente fragilizados depois da fracassada tentativa de golpe dentro do golpe para uma terceira reeleição nas casas legislativas – quase aprovada por um arremedo demoníaco de Suprema Corte.

O PT tem a maior bancada da Câmara. É natural que reivindique a presidência da casa.

Mas, para isso, precisa da restauração urgente da opinião pública.

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