E se aparecer na Vaza Jato o pacto de Moro com Bolsonaro? Por Moisés Mendes

Publicado no Blog do Moisés Mendes

Moro e Bolsonaro. Foto: Agência Brasil

Não é improvável que apareça, em meio às mensagens da Vaza Jato, uma conversa em que os procuradores de Curitiba dizem sem volteios que a missão deles estaria cumprida se, além de condenar e prender Lula, a força-tarefa elegesse Bolsonaro.

É possível que existam conversas em que eles interagem sobre o pacto pré-eleição de Sergio Moro com Bolsonaro. E sobre o projeto de infiltrar o juiz no governo e depois no Supremo, para que o Brasil virasse uma grande Lava-Jato.

Não há como duvidar, depois do que foi divulgado, que existam mesmo mensagens diretas e confirmadoras das armações, com direito a gargalhadas. A Lava-Jato era uma fábrica de coisas aparentemente improváveis.

Mas se essas confidências fossem enfim reveladas, é provável também que a repercussão viesse a ser quase nula.

Jornais ditos alternativos, sites e blogs (menos a grande imprensa) divulgam até cinco conversas com os conteúdos criminosos dos lavajatistas, diariamente, há quase dois meses.

As conversas vão revelando relações cada vez mais graves e grotescas. E cada vez mais, apesar da gravidade, as mensagens vão virando paisagem.

Dallagnol pode dizer, como disse, que a delegada da Polícia Federal Erika Marena forjava depoimentos de testemunhas para ajudar os amigos do Ministério Público e Sergio Moro.

Os procuradores podem sugerir, como sugeriram, uma caçada ilegal a parentes de ministros do STJ para assim criar constrangimentos e chegar mais perto de Lula.

A imprensa à margem das corporações de mídia divulga pela manhã, à tarde e à noite conversas de Dallagnol, de Sergio Moro e de seus subalternos. Acordamos e dormimos lendo notícias sobre novas conversas vazadas.

Podemos ser despertados pelas manchetes do Brasil 247 e do DCM com as gargalhadas de Dallagnol ao admitir que há muito tempo não tem vergonha na cara.

A ressonância dessas revelações se fecha cada vez mais na bolha que acompanha a divulgação das conversas e talvez só tenha algum efeito real quando interferir, daqui a alguns dias, no processo sobre a suspeição de Moro no Supremo.

Para a maioria, todas essas revelações são como se Dallagnol confessasse, nos despachos com o chefe Moro, que não toma banho todos os dias.

As frases com os ‘kkkk’ de Dallagnol, quando ele confessa atitudes ilegais, e os comentários criminosos dos outros procuradores vão sendo diluídos no pântano da Vaza Jato.

Se disserem amanhã que Bolsonaro participava das reuniões da força-tarefa e depois se reunia com Sergio Moro, para acertar sua contratação, não acontecerá nada de mais grave.

O Brasil precisa ficar sabendo o que acontecia em Curitiba. Mas a sensação é de que já se sabe muito e que, mesmo assim, não se sabe quase nada. A bandalheira ali produzida já não causa impacto.

Se perguntarem para as pessoas na rua o que elas conhecem da Vaza Jato, elas dirão que não sabem o que é a Vaza Jato. Não sabem que a Lava-Jato queria perseguir até filhos de ministros do STJ para impedir que Lula disputasse a eleição.

Virou paisagem a repetição de conversas que comprovam a relação ilegal da Lava-Jato com investigadores da Suíça e dos Estados Unidos.

Assim como já era paisagem e virou natureza morta a denúncia sobre o plano de Dallagnol de criar e gerir uma fundação com R$ 2,5 bilhões da Petrobras.

Se as mensagens hackeadas finalmente revelassem, com sujeito, verbo e predicado, que havia uma trama para não só acabar politicamente com Lula, mas para eleger Bolsonaro e aparelhar o governo, é possível que a informação, mesmo saída do Jornal Nacional e na voz de William Bonner, circulasse pelas salas dos brasileiros como uma notícia sobre a previsão do tempo.

A classe média não quer saber da destruição da imagem dos seus justiceiros. Quando um dos procuradores levanta, numa das mensagens vazadas, a possiblidade de as ações da Lava-Jato serem tornadas nulas por serem ilegais, Dallagnol rebate: isso só acontecerá “se perdermos a opinião pública”.

Era preciso manter o povo enrolado ao lado deles, para que pudessem trabalhar como facção criminosa e sem medo, porque com apoio popular. A opinião pública seria o habeas para que agissem como mafiosos.

Eles também queriam manter e mantiveram o Supremo sob controle. Supremo, imprensa e opinião pública estiveram com Moro e Dallagnol todo o tempo, por cinco anos.

Os brasileiros não aceitam a desilusão com a Lava-Jato. A maioria ainda não consegue sair do transe, o que teria altos custos emocionais, pela admissão íntima da vergonha de que quase todos foram enganados.

O brasileiro médio, principalmente o que votou em Bolsonaro, não quer saber de detalhes com as provas de que a força-tarefa era uma quadrilha.

O brasileiro anestesiado quer se manter afastado dessas verdades, longe das conversas denunciadoras da podridão de Curitiba. A negação ainda sustenta o lavajatismo e o bolsonarismo.