E se o Brasil se transformasse numa grande Dinamarca?

Falta muito, é verdade, mas convém lembrar que toda grande caminhada começa no primeiro passo.

E então no sonho isto era o Brasil

O Diário não é Luther King, mas teve um sonho.

Sonhou que o Brasil dormiu Brasil e acordou Dinamarca.

E então as pessoas eram as mais felizes do mundo, nas listas de felicidade planetária que tanto se fazem hoje. Primeiro Brasil, e depois a Escandinávia.

Nas grandes cidades, a começar pela São Paulo em que nasci e na qual haverei de morrer, os ciclistas se multiplicavam pelas ruas. Tinham espaços generosos para eles, e com as bicicletas estavam fazendo um favor para eles próprios e para o planeta.

Congestionamentos tinham se transformado num pesadelo pretérito. Havia uma quantidade justa de carros, e ainda mais justa de ônibus modernos e confortáveis, e o metrô levava as pessoas para todas as partes.

E então as escolas públicas eram de excelente qualidade, e os professores recebiam salários dignos. Crianças de famílias menos abastadas tinham uma educação, nas escolas públicas, que lhes permitiam concorrer por bons empregos na vida adulta em condições de igualdade com os filhos de gente mais rica. A isso se dá o nome de meritocracia.

E então no sonho do Diário os hospitais públicos eram exemplares. Médicos, enfermeiras, equipamentos, atendimento, tudo era impecável. Todos os hospitais se pareciam com o Einstein de São Paulo.

E ninguém se considerava melhor que ninguém apenas por ter mais dinheiro ou ocupar um cargo de destaque. Um lixeiro era tão respeitado quanto um banqueiro, porque ambos prestam serviços à sociedade e, ao cabo de um determinado tempo, serão igualmente reduzidos a cinzas.

E então os mais afortunados – com mais patrimônio quer por herança, quer por mérito próprio – pagavam mais imposto porque sabiam que este era o preço para viverem numa sociedade em que as pessoas eram as felizes em todo o mundo, elas próprias incluídas. Teto digno todos tinham, e favela era uma palavra em desuso.

E então as pessoas que elas elegiam nas urnas livremente colocavam, em nome da transparência, sua declaração de renda à vista de todos, na internet.

E no sonho os presos brasileiros tinham oportunidade de se reintegrar à sociedade, em presídios como o de Bastoy, na Noruega, em que cada qual tinha seu quarto, e livros, e tarefas comunitárias nas quais se ocupar, e orientação de psicólogos e professores para não serem empurrados à marginalidade quando prescrevesse a pena.

E então o Diário acordou, e lamentou que fosse apenas um sonho, que o Brasil continuava a ser Brasil, e São Paulo era um caos com apenas trinta minutos de chuva.

E o Diário ia ficar frustrado, decepcionado, porque a distância da Escandinávia para o Brasil é muito longa, muito maior que os 10 000 quilômetros físicos.

Mas então o Diário lembrou de Lao-Tsé, o sábio chinês, e se sentiu confortado ao refletir que cada caminhada começa no primeiro passo, e às vezes o primeiro passo é apenas um sonho como este que o Diário teve.

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