E se os rapazes do Direita SP passassem 2 horas na mão de seu ídolo, o delegado Fleury? Por Kiko Nogueira

O delegado Fleury na homenagem do Direita São Paulo

O líder do grupo Direita São Paulo, Douglas Garcia, ficou indignado com a agressão sofrida por um dos “seus”.

“Bando de filhos da puta! Quem é a porra dos intolerantes? O autor do evento Bloco Porão do DOPS sou EU, PORRA!!!”, escreveu no Facebook.

O rapaz atacado por antifascistas foi medicado, passa bem e Douglas garante que no próximo dia 10 seu povo estará nas ruas de São Paulo homenageando Carlos Alberto Brilhante Ustra e Sérgio Paranhos Fleury.

Douglas está gozando do direito de espernear à vontade — que foi negado às vítimas de Fleury.

Bolsonarista doente, é provável que ele não saiba muito bem quem foi o delegado que transformou em herói.

O fanatismo e a ignorância colocam Fleury naquele pântano do “combate ao terrorismo”. Impediu que os comunistas vencessem e foi retratado injustamente por historiadores esquerdopatas.

Em “A Ditadura Escancarada”, o segundo livro dos cinco sobre o regime militar, Elio Gaspari fala de Fleury. Provavelmente, Douglas não gostaria de encarar um tratamento como o que seu ídolo dispensava a suas presas.

Ou adoraria. Vai saber. 

Abaixo, alguns trechos:

Como sucedera no Rio de Janeiro, o porão paulista se associara à escumalha da Polícia Civil. O DOPS abasteceu-se recrutando quadros na Delegacia de Roubos, símbolo da violência e da corrupção. Um dos ases dessa migração tornara-se peça importante na máquina do major Waldyr. Sérgio Fernando Paranhos Fleury tinha 35 anos. Passara a vida na polícia. Era menino quando seu pai, médico-legista, morreu conta minado por um cadáver. O governo pagara seus estudos, e desde os dezessete anos ele trabalhava em delegacias, engordando o orçamento com bicos.

Em 1967 fazia parte do grupo de policiais que cuidava da segurança do cantor Roberto Carlos, o Rei do Iê-Iê-Iê. À sua volta gravitava uma turma de investigadores audaciosa e violenta. Produto da polícia paulista, com sua tradição de torturas e assassinatos, encarnaria o combate ao terrorismo. Vulgar e corrupto, projetava a imagem do ma chão valente, quando na realidade sua fama derivava da bestialidade do meio em que vivera e sua ascensão ao posto de chefe dos janízaros da ditadura, do declínio dos padrões éticos dos comandantes militares da ocasião.

Nunca na história brasileira um delinqüente adquiriu sua proeminência. Tinha o pé direito na repressão aos movimentos de esquerda e o esquerdo na briga entre quadrilhas de tráfico de drogas. Dividia sua jornada defendendo o regime no porão e os interesses do traficante Juca na zona. Nos últimos meses de 1968 Juca (José Iglesias) brigara com seu sócio Miroca (Waldemiro Maia), e Fleury, no comando dos policiais que lhe vendiam proteção, foi à luta com um objetivo imediato: capturar uma caderneta onde estava a contabilidade das propinas pagas a detetives, comissários e delegados, guardada pelo traficante Luciano (Domiciano Antunes Filho), que ficara no bando de Miroca.

Na madrugada de 3 de dezembro, Fleury, acompanhado por quatro policiais e um alcagüete, achou Luciano em companhia de outro marginal. Levaram-nos para o quilômetro 32 da rodovia Castello Branco e metralharam-nos. Em seguida, abriram a mala do carro e desfizeramse de outro cadáver. Seriam mais três “presuntos” sem história, se não tivessem soltado o alcagüete Carioca (Odilon Marcheroni de Queiróz). Tentando se proteger, contou em juízo e à televisão não só o que vira, mas também o que sabia da relação da polícia com a guerra das quadrilhas de tóxicos. Duas semanas depois, quando o país estava debaixo do choque da edição do AI-5, Carioca foi preso.

Entregaram-no a Fleury e levaramno para a casa do investigador Fininho (Adhemar Augusto de O1iveira). No dia seguinte os jornais paulistas publicavam uma entrevista do alcagüete renegando tudo o que denunciara. Nunca mais se ouviu falar dele até que Fininho contou a um jornalista que o estrangulou passando-lhe no pescoço uma corda de náilon. Carregava sua língua no chaveiro, como amuleto.

Os comandantes militares que incorporaram Fleury à “tigrada” sabiam que tinham colocado um delinqüente na engrenagem policial do regime. Nos anos seguintes o delegado tornou-se um paradigma da eficácia da criminalidade na repressão política. Um raciocínio que começara com a idéia de que a tortura pode ser o melhor remédio para obter uma confissão, transbordava para o reconhecimento de que um fora-da-lei pode ser o melhor agente para a defesa do Estado. Recompensando o e protegendo-o, em 1971, por sugestão do CIE, o governo passou-lhe no pescoço a fita verde-amarela com a Medalha do Pacificador.

Sérgio Paranhos Fleury

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Na noite de 1° de novembro dois frades — Ivo e Fernando — tomaram um ônibus para o Rio, onde tratariam do esquema de apoio para a chegada dos militantes que haviam saído de Cuba e cujo destino era o foco do Pará. Ivo acabava de voltar de Porto Alegre, para onde transportara Câmara Ferreira. Na manhã seguinte, estavam no Catete quando foram agarrados, metidos numa camionete e levados para o quinto andar do edifício do Ministério da Marinha, onde o Cenimar tinha a sua central de torturas.

Lá, eram esperados pelo delegado Fleury. Ele os separou. De cuecas, frei Fernando foi pendurado no pau-de-arara. Deramlhe choques nas mãos e nos pés, molharam-lhe o corpo para aumentar a intensidade das descargas. Deslocaram-lhe o maxilar. Enfiaram-lhe um fio na uretra.

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Símbolo de “tenacidade, desprendimento, alto espírito de sacrifício e excepcional coragem”, o delegado Sérgio Fleury tornara-se força autônoma na polícia paulista. Transformando impunidade em onipotência, projetava-se como guardião dos códigos de silêncio e vindita que permeiam as relações policiais. Neles, poucas figuras comparam-se à do vingador, e foi nesse papel que Fleury, acompanhado por nove comparsas, entrou no presídio Tiradentes na tarde de 17 de julho de 1970.

Horas antes, o bandido Guri (Adjovan Nunes) matara um policial. O bando vinha para a desforra. Tiraram cinco presos da carceragem e mataram-nos nas vizinhanças de Guarulhos. Outros cinco presidiários seriam executados nas horas seguintes, até que acharam Guri num matagal de Itaquera com 150 furos de bala. O matador de guerrilheiros apresentava-se à corporação como líder do Esquadrão da Morte, resgatando a promessa de que para cada policial morto morreriam dez bandidos.

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Durante mais de um mês o corpo de Iara [Iavelberg] ficou numa gaveta do necrotério como isca para atrair Lamarca. Era o terceiro cadáver da perseguição. A “tigrada” pusera nessa liça um grau de violência e ressentimento estranhos até mesmo à neurastenia do porão. Stuart Angel fora morto amarrado à traseira de um jipe, com a cabeça próxima ao cano de descarga, e arrastado pelo pátio da base aérea do Galeão.

Depois de ter sido presa no apartamento da Pituba, Nilda Cunha ouvira os gritos de seu namorado. Tinha dezessete anos e fora ameaçada de estupro. O delegado Sérgio Fleury, que voara de São Paulo, alisara-lhe o rosto e avisara: “Vou acabar com essa sua beleza”. Vendaram-lhe os olhos, levaram-na para outro lugar. Quando voltou a ver, estava ao lado do cadáver de Iara. Obrigaram-na a tocá-la. Nilda enlouqueceu. Teve crises de cegueira e foi internada diversas vezes. Em novembro, numa das suas crises, morreu. Meses depois sua mãe enforcou-se com um fio de máquina de calcular

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O jornalista Percival de Souza, em sua biografia de Sérgio Fleury, narra um episódio em que o delegado, tendo levado um preso ao que supunha ser um “ponto”, impacientou-se: “Aqui não vai aparecer mais ninguém”. Matou-o dentro do automóvel em que estavam. Fleury governava uma vala no cemitério de Perus, administrada por um policial DOPS. Entre 1971 e 1973, nela enterraram-se como indigentes, com nomes falsos e até mesmo com as identidades verdadeiras pelo menos 25 pessoas que haviam sido capturadas com vida.

Morreu afogado ao cair de sua lancha na madrugada de 1º de maio de 1979, segundo sua mulher. O corpo não foi necropsiado. Corrupto, estava rico, incontrolável e tornara-se um problema para a ditadura.

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