“É um retrocesso”: escritor detona vinda do coração de Dom Pedro I ao Brasil

Atualizado em 22 de agosto de 2022 às 15:01
Montagem com o coração de Dom Pedro I e pintura do imperador
Foto: Divulgação / YouTube / portoponto e Arquivo Nacional

Por Wallacy Ferrari

Previsto para chegar ao Brasil nesta segunda-feira, 22, o coração de D. Pedro I será usado nas comemorações do bicentenário da Independência em eventos especiais realizados em Brasília, após quatro meses de negociações para o empréstimo e transporte adequado do órgão.

No entanto, a medida divide opiniões da classe científica brasileira devido à validade da medida e custo alto. Um dos críticos do empréstimo é o escritor e pesquisador Paulo Rezzutti, autor de diversos best-sellers relacionados a história do Brasil Império, incluindo “Dom Pedro, a história não contada”, vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura de 2016, na categoria biografia.

Em entrevista exclusiva ao portal Aventuras na História, ele não apenas manifestou ser contra a chegada do coração do imperador ao país, como justificou relatando o real desejo do próprio D. Pedro I em relação a conservação e localização do órgão.

História por trás

Como explica Paulo, D. Pedro abdicou do trono brasileiro, em 7 de abril de 1831, partiu para a Europa em meio ao caos político com seu irmão, D. Miguel, tomando o poder.

No Velho Continente, ele prepara uma tropa na França e invade Portugal, primeiramente parando em Açores e, por fim, retomando a grande cidade de Porto, no entanto, acabou contraindo tuberculose durante um cerco — doença que o vitimaria fatalmente.

“Quando ele morre, em 1834, […] D. Pedro I pede duas coisas como desejo final. A primeira, que ele seja enterrado como um soldado da filha, com uniforme de general do décimo batalhão de caçadores. E eu vi os restos mortais deles, e o uniforme estava só com condecorações portuguesas. E ele deixa, por vontade própria, o coração em Porto, onde sofreu o cerco”, explica Paulo.

A decisão não se deu apenas pela localidade; o palácio onde passou os últimos dias de vida era o mesmo onde nasceu e cresceu. Assim, optou por doar o órgão para a cidade e construindo sua imagem de herói romântico e patriota.

Rezzutti acrescenta que o plano inicial era armazenar o órgão na Câmara Municipal, mas a viúva, Dona Amélia, avaliou que a Igreja da Lapa, frequentada pelo marido em vida, era o local apropriado.

Direção contrária

A conservação, realizada pelo doutor João Fernandes Tavares, utilizou de métodos disponíveis na época para realizar o melhor trabalho possível. Contudo, os líquidos escolhidos para a conserva causam uma espécie de inchaço nos tecidos do órgão quando estão em contato com a luz. Dessa forma, o coração fica em uma caixa fechada, despertando curiosidade sobre o uso do órgão em terras tupiniquins.

“A única coisa que D. Pedro I pediu foi para que o coração ficasse no Porto. Então, por que o Brasil, que quer homenagear ele, quer trazer o coração para cá? Se o corpo já está aqui! Outra questão é que veremos uma caixa fechada, o coração não ficará exposto. E o terceiro ponto: por que iremos adorar o coração? Qual o simbolismo do coração? É um retrocesso”, enfatiza o escritor.

Além disso, o escritor acrescenta sua experiência na curadoria de exposições relacionadas a artigos históricos. O transporte e manutenção de peças extremamente delicadas são caros e ainda requer o amparo de um seguro apropriado, que não é barato.

“Quanto vai ser o seguro para trazer esse coração? E o que não poderia ser feito com esse dinheiro em prol da educação e preservação da nossa memória? Então eu não sou a favor disso”, concluiu.

Publicado originalmente em Aventuras na História

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