Eduardo Bolsonaro usa o Holocausto dos judeus para chamar Estatuto do Desarmamento de “nazista”

Atualizado em 9 de fevereiro de 2023 às 18:30
Eduardo Bolsonaro

Em pronunciamento feito na Câmara na quarta, dia 8, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou um mantra da extrema-direita dos EUA numa nova demonstração de estupidez e má-fé.

O Zero 3 comparou a Lei do Desarmamento ao Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Segundo Eduardo, Adolf Hitler usou expediente parecido para tirar armas da comunidade judaica da Alemanha. “A nossa lei aqui, o Estatuto do Desarmamento, a lei 10. 826, trata exatamente da mesma coisa”, comentou Eduardo. “Ou seja, é uma lei nazista e genocida”.

Eduardo repete a falácia de que os judeus teriam sobrevivido ao nazismo se tivessem armas.

Não existe um único trabalho acadêmico sério sobre isso, apenas panfletos do lobby armamentista. O tema não é levado a sério por nenhum dos grupos que foram alvos do regime nazista— além dos judeus, os ciganos, deficientes, gays ou poloneses.

O Terceiro Reich promulgou apenas em março de 1938 a Waffengesetz, lei que exigia permissão policial para quem ter um revólver. Outras armas de fogo não foram controladas.

Se o regime priorizava o desarmamento da população alemã, por que demorou mais de cinco anos, desde a ascensão ao poder, para aprovar essa lei e por que se limitou às pistolas?

A democrática República de Weimar, que antecedeu o nazismo, aprovou sua própria legislação de controle que, sob vários aspectos, era mais restritiva.

Em novembro de 1938, um dia depois dos pogroms da Noite dos Cristais, judeus foram impedidos de ter qualquer tipo de arma, incluindo espadas, que muitos militares veteranos tinham guardado como suvenir da Primeira Guerra Mundial.

Os judeus eram menos de um por cento da população. “É absurdo alegar que a posse de armas de fogo permitiria que criassem algum tipo de resistência contra um programa sistemático de perseguição implantado por uma burocracia moderna, exercido por uma força policial bem armada, apoiado ou tolerado pela maioria dos habitantes”, escreveu Alan E. Steinweis, professor de História e Estudos do Holocausto da Universidade de Vermont, autor de livros como “Kristallnacht 1938”, no New York Times.

“A sugestão de que, se os alemães comuns tivessem armas teriam arriscado a vida em uma resistência armada contra o regime simplesmente não se encaixa em uma realidade histórica lamentável de um governo que era bastante popular internamente. Dentro da Alemanha, só o Exército tinha a força física necessária para desafiar ou depor os nazistas, mas os generais já tinham se manifestado a favor de Hitler logo de cara”.

“O fato de os judeus não terem conseguido montar uma defesa eficiente contra a Waffen-SS no Gueto de Varsóvia, em 1943, é um bom exemplo do que acontece quando cidadãos comuns, com armas pequenas, tentam se rebelar contra uma força bem-aparelhada”, ele prossegue.

“O levante no gueto tem um forte significado simbólico como exemplo da determinação dos judeus em resistir à opressão, mas a verdade é que salvou poucas vidas e teve pouco impacto tanto no desenrolar da guerra como no Holocausto. De fato, os judeus ao redor do mundo reagiram à tragédia concluindo que precisavam se proteger do antissemitismo de maneira mais eficaz, mas perceberam que isso teria que ser conseguido não com a aquisição individual de armas de fogo, mas o estabelecimento de um Estado soberano com um Exército para defendê-lo”.