
A expectativa era de que os Estados Unidos iriam interferir nas eleições brasileiras. Pois ocorreu o contrário.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro ganhou uma dimensão importante nos EUA. Dez dias depois de derrotamos Flávio Bolsonaro, o candidato apoiado por Donald Trump, os eleitores estadunidenses impuseram uma derrota histórica à extrema-direita.
Os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado nas eleições legislativas desta terça-feira (3), em uma mudança que provocou manifestações de agradecimento ao Brasil nas redes sociais.
O resultado brasileiro passou a ser citado por parlamentares, ativistas, pesquisadores, cientistas políticos americanos como referência para a mobilização contra Trump e as big techs. As manifestações mostram que a vitória brasileira foi incorporada ao discurso de setores que defendiam uma reação ao avanço fascista.
Uma das mensagens mais expressivas veio de Isaiah Martin, jovem político democrata do Texas que disputou uma cadeira na Câmara dos Representantes pelo 18º distrito congressional, na região de Houston. Ex-integrante da equipe da congressista Sheila Jackson Lee, Martin ganhou projeção nas redes sociais com críticas a Trump e propostas de ampliação do acesso à saúde, valorização dos salários e fortalecimento dos serviços públicos.
Martin publicou uma mensagem de agradecimento aos brasileiros: “OBRIGADO, BRASIL, POR NOS MOSTRAR O CAMINHO”, escreveu em suas redes. Poucos minutos depois, adicionou: “DEPORTEM OS BOLSONARO!”.
Brazil. Serbia. Israel (perhaps). America. The self correcting resilience of democracy. It takes time, true. But testimony that ordinary voters defend democracy (no 2 issue in the US exit poll). And protected by the courts, elections matter. A reality check for authoritarian leaders.
— Pippa Norris (@PippaN15) November 4, 2026
A vitória brasileira vira referência internacional
A cientista política Pippa Norris, pesquisadora de Harvard conhecida por seus estudos sobre democracia e comportamento eleitoral, também incluiu o Brasil em uma sequência de países que, em sua avaliação, apresentam sinais de resistência democrática.
“Brasil. Sérvia. Israel (talvez). Estados Unidos. A resiliência autocorretiva da democracia”, escreveu. O ativista Diego A. Ballestero também destacou a experiência brasileira, dizendo que o Brasil venceu o “algoritmo tecnofascista do ódio e da morte”.
Ballestero associou essa experiência à formação de redes internacionais de solidariedade. Segundo ele, movimentos progressistas de diferentes países passaram a se conectar para enfrentar campanhas políticas baseadas na divisão e na hostilidade.
O jornalista e comentarista político Mehdi Hasan afirmou que o resultado representava algo especial e sugeriu, em tom provocativo, que um futuro candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos defendesse a extradição de Mark Zuckerberg para o Brasil.
Democratas conquistam Câmara e Senado
Nos Estados Unidos, a dimensão da derrota republicana foi confirmada pelas projeções divulgadas após o fechamento das urnas.
Os democratas conquistaram o controle das duas casas do Congresso. O partido aproveitou a impopularidade de Trump para ampliar sua representação e conquistar instrumentos institucionais capazes de limitar a atuação do presidente durante os dois últimos anos de seu mandato.
Vote like a Brazilian today!!!!!! EXPLODE!!!!!
— Isaiah Martin (@isaiahrmartin) November 3, 2026
No Senado, os democratas retiraram dos republicanos cadeiras em Ohio, Iowa, Carolina do Sul, Maine, Carolina do Norte, Kansas e Texas. Em Michigan, Abdul El-Sayed foi eleito e se tornou o primeiro senador muçulmano da história dos Estados Unidos.
O resultado no Texas foi especialmente significativo. O estado, que Trump venceu por ampla margem em 2024, não elegia um democrata para o Senado desde 1988. A vitória de James Talarico sobre Ken Paxton, aliado do presidente, encerrou essa sequência republicana.
A eleição também alterou o equilíbrio político em Washington. Com a maioria nas duas casas, os democratas poderão abrir investigações parlamentares, bloquear propostas legislativas e exercer maior fiscalização sobre o governo Trump. Os Bolsonaros estão fritos.
O próprio presidente procurou reduzir o significado político da derrota. Em entrevista à Fox News, afirmou que não considerava as perdas republicanas um ataque pessoal. Ao New York Times, declarou que aceitaria os resultados eleitorais.
O Brasil influenciou os Estados Unidos
Durante a campanha presidencial brasileira, Trump apoiou Flávio Bolsonaro e apostou na eleição de um aliado ideológico no maior país da América Latina. O resultado foi diferente: Lula venceu e permaneceu na Presidência. A virada histórica provou que o monstro sangrava e podia ser morto, como diria Schwarzenegger no “Predador”.
Ok. As razões da derrota de Trump são principalmente domésticas. Pesquisas de boca de urna e análises eleitorais apontaram insatisfação com o custo de vida, a guerra contra o Irã, as tarifas comerciais e denúncias de corrupção. Muitos eleitores também disseram desejar um Congresso capaz de impor limites ao presidente. A impopularidade do sujeito é galopante.
Mas o resultado de Lula ofereceu aos movimentos progressistas um exemplo de luta. Trump tentou influenciar a eleição brasileira em favor de Flávio Bolsonaro. Notou que era um cavalo paraguaio e refugou. Flávio e Eduardo estão abandonados à própria sorte e não será surpresa se acabarem deportados.
Para uma imprensa vagabunda e vira-latas, fica o recado de que brigar com o povo e com os fatos é um péssimo negócio.
