
O jornalista Erick Bretas, ex-diretor da Globo e responsável pelo Globoplay, contestou a versão de que Daniel Vorcaro tenha sido apenas um financiador de “Dark Horse”, filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sem o poder de decisões importantes. Em publicação no X, Bretas afirmou que mensagens divulgadas pelo Intercept Brasil indicam que o ex-dono do Banco Master tinha influência incomum sobre a divulgação do longa.
A reação ocorreu após o Intercept revelar um diálogo em que Vorcaro aparece orientando Thiago Miranda, sócio do Portal Leo Dias, a apagar uma publicação sobre o filme que havia sido dada em primeira mão. Para Bretas, o episódio sugere um grau de interferência raro no mercado audiovisual. Ele afirmou que “ele mandava mais que um coprodutor”.
O jornalista comparou o caso com sua experiência em “Ainda Estou Aqui”, filme premiado no Oscar e coproduzido pelo Globoplay. Bretas disse ter assinado o contrato da emissora como coprodutora, mas afirmou que isso não lhe dava poder de decisão semelhante ao que Vorcaro parecia ter em “Dark Horse”.
“Eu e as pessoas do Globoplay não tínhamos o poder de decisão na estratégia de divulgação do filme do que o Vorcaro tinha no ‘Dark Horse’, pelo que essa troca de mensagens revela”, escreveu.
Vou contar uma coisa pra vocês: quando estava no Globoplay, eu assinei o cheque da participação da Globo na coprodução do Ainda Estou Aqui.
Eu e as pessoas do Globoplay não tínhamos o poder de decisão na estratégia de divulgação do filme do que o Vorcaro tinha no Dark Horse,… https://t.co/qk44ICXUJN
— Erick Bretas (@bretas_erick) May 21, 2026
Controle sobre o Portal Leo Dias
Os diálogos indicam que o banqueiro acompanhava de perto a divulgação do projeto, do qual era o principal financiador. Às 12h07 de 1° de agosto de 2025, Vorcaro enviou uma mensagem pelo WhatsApp demonstrando incômodo com a publicação.
“Opa tudo bem? Achei que divulgar que ta fazendo o filme muito ruim, nao acha?”, escreveu ao empresário. A reportagem havia sido publicada pelo Portal Leo Dias poucas horas antes e trazia detalhes inéditos sobre a produção cinematográfica.
Miranda, que também atuava como intermediador de repasses financeiros ao filme, respondeu às 12h40 concordando com a avaliação do banqueiro. “Acho muito!! Tínhamos combinado de não divulgar nada. Vou entender agora com o Mário”, afirmou, possivelmente se referindo ao deputado federal Mário Frias (PL-SP). Em seguida, Vorcaro reforçou sua insatisfação: “Mas soltou no Leo. Mto ruim”.
Poucos minutos depois, o sócio do portal prometeu agir para retirar a reportagem. “Acabei de ver. Vou pedir pra apagar”, escreveu às 12h46. Na mesma sequência de mensagens, afirmou ter conversado com “Mário e Flávio”, em referência ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ambos ligados ao projeto.
Miranda justificou o vazamento dizendo que as gravações e testes já haviam começado. “Mas não vai aparecer nome de ninguém. Eles me garantiram isso”, escreveu. Às 12h49, informou ao banqueiro: “Já mandei deletar”. Mesmo assim, Vorcaro voltou a reclamar.

Financiamento do filme
A avaliação ganhou força depois que Karina Ferreira da Gama, dona da produtora GoUp, afirmou à GloboNews que Vorcaro bancou mais de 90% da produção. Segundo ela, o filme está em fase de pós-produção e o orçamento já realizado chega a cerca de US$ 13 milhões. Karina, porém, disse que o banqueiro atuou como intermediador de verba, e não como investidor. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem tratado Vorcaro como investidor do projeto.
A versão atual contrasta com declarações anteriores da produtora. Em 13 de maio, a GoUp divulgou nota dizendo que “afirma categoricamente que não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário”.
Karina também havia dito à Folha: “Eu já falei com a equipe dele [Flávio Bolsonaro]. Não tenho absolutamente nenhum recurso oriundo dessa pessoa ou das empresas que ele ou Fabiano Zettel fazem parte”.
Na entrevista à GloboNews, Karina afirmou que a prisão de Vorcaro obrigou a produtora a buscar novos apoiadores. “Quando ele [Vorcaro] foi preso, a gente já estava filmando. Eu tinha folha de pagamento para pagar, eu já tinha profissionais para pagar. E nenhum deles sentiu o impacto porque todo mundo arregaçou as mangas. ‘Gente, vamos ver onde a gente ajuda, quem pode apoiar’. Nossa vida todo dia era falar com pessoas da iniciativa privada que pudessem apoiar o nosso projeto”, disse.