“Ele queria me ver fazendo sexo”: um novo capítulo das aventuras eróticas de ANÔNIMA.

Por Manara
Por Manara
No último capítulo conheci Vicente, um velho escritor chileno, estranho, excêntrico e com uma aparência ligeiramente asquerosa. Parecia misterioso e um pouco triste, exceto quando gargalhava com vontade e exibia os dentes amarelos emoldurados por lábios finos e uma barba grisalha.
Ele me fora apresentado por Marcos, um amigo com quem frequentemente me divirto.
Fomos a um bar charmoso e habitual – e o meu único objetivo era conhecê-lo e saber que ideia, afinal, ele tivera a meu respeito, mesmo antes de trocar uma só palavra comigo.  Ele falou-e de seus livros e de seus hábitos – que me pareceram caracterizar um estágio grave de alcoolismo.
Depois de deixá-lo falar por alguns instantes. Ah, os escritores! deixe-os falar, alimente seu ego gigantesco e os terá na palma de sua mão, talvez para sempre.
E quando finalmente manifestei minha curiosidade acerca de sua ideia – aquela curiosidade que já me corroía, quase sem remédio – ele gargalhou sonoramente, sem uma palavra, até que, para o meu alívio, seus lábios se abriram – não sei se para responder aquilo que eu tanto anseava saber ou se para proferir mais meia dúzia de insanidades.
– Estou cansado das minhas baboseiras. Não produzo coisa alguma que não me faça ter vontade de vomitar. Talvez seja só uma crise criativa – eu espero sinceramente que sim – ou, na pior das hipóteses, este sou eu morrendo artisticamente.
Franzi as sobrancelhas. Aquilo não era o que eu queria saber. É cruel, mas não me interessavam as crises de um escritor falido. Deixei que ele prosseguisse, a contragosto.
– Meu último livro foi um compilado de contos eróticos. Horrível, garanto. Nojento, amador, ignóbil. Eu juro, mulher, que se alguém me presenteasse com um daqueles exemplares, eu seria capaz de atirá-lo de volta com toda a minha força.
– Ele está exagerando – atalhou Marcos, quase sempre apaziguador – seus livros são um sucesso no Chile. Isso me parece, ao contrário, uma crise de estrelismo. Vicente está em busca de sua obra-prima. (e riu).
O velho continuou:
– Sim, eu estou velho. Este talvez seja o último. Talvez eu sequer o termine. Quando conheci este senhor, este excêntrico senhor – e apontou para Marcos – ele falou de você. De vocês, na verdade. De como se entendiam bem, especialmente na cama, de quanto prazer compartilhavam, de quanta liberdade havia em seus lençóis. Confesso que senti inveja – mais quanto mais velho você fica, melhor consegue lidar com tais mediocridades. Em vez de maldizer o meu novo amigo por este que me parece um grande feito sexual, tive uma ideia talvez absurda – mas, a essa altura, o que diabos eu tenho a perder? Por isso resolvi contá-la, mesmo sendo absurda. Talvez te cause náuseas, talvez você saia enfurecida desse bar e talvez, antes, me atire essa cerveja nas fuças, e eu rirei disso. Mas talvez você tope. O fato é que, sem mais rodeios, preciso de algo realista. Preciso de sexo visceral, autêntico. Preciso escrever algo que não se pareça com um produto das minhas punhetas solitárias e que não tenha a cara das putas chilenas, tão vazias, tão repetitivas. Preciso de algo que gere identificação.
– Senhor, acho que já entendemos. Mas o que tenho eu, uma desconhecida, a ver com isso? – sim, eu estava impaciente.
– Querida, eu seria um expectador comportadíssimo. Garanto que você sequer me notaria.
Gargalhei. Se eu havia mesmo entendido, um velho escritor semidesconhecido gostaria de documentar as minhas transas. Gostaria de assisti-las e, se fôssemos permissivos, dirigi-las ao seu bel prazer. Eu estava, claramente, frente a frente a um louco pervertido.
Não me ofendi com a proposta. Sempre fui dada a exibicionismos baratos. Mas este era um convite, no mínimo, esdrúxulo.
– O que te garante que eu não vá acertá-lo com uma garrafa quebrada? – eu me esforçava para manter um ar sério, quase psicopata. Precisava ver até onde a loucura dele o conduziria.
– Bem, era um risco que eu precisava correr.
– Você é um velho sem escrúpulos.
Ele riu cinicamente. Marcos, que até então permanecera atônito, como um observador curioso, olhou-me, cúmplice. Ele sabia do meu teatro. Instalou-se uma atmosfera tensa, quase odiosa.
– Querida, você seria a musa de um escritor pervertido e fracassado, o que mais se pode querer da vida? – dizia esta e outras baboseiras enquanto ria, um pouco bêbado.
– Que diabos eu ganharia com isso? – disse, ainda no personagem.
– Alguns pesos, talvez.
– E a realização do seu maior fetiche, querida – completou Marcos, sendo atrevido como de praxe.
E foi a deixa para que eu, já possuída pela vontade de rir por três dias seguidos dessa situação quase inacreditável, despedaçasse o meu personagem perfeito de mocinha ofendida.
Gargalhei por alguns segundos, talvez mais do que o esperado. Assim que me recuperei do incoveniente acesso de riso, vislumbrei os dois rostos masculinos à espreita, à espera de uma resposta, quem sabe, lúcida.
– Tentaremos, cavalheiros. – o velho sorriu. Senti a mão de Marcos tocar-me sob a mesa.
– Quando?
– Para quem já viveu muito, o senhor me parece apressado demais. Levará um laptop, ou uma máquina de escrever, para que eu o veja exatamente como o velho Buk? Não vá tão rápido, não esqueça as preliminares. Eu ainda não falei as minhas condições.
O par de olhos esverdeados do velho escritor acenderam como duas lâmpadas. Ele parecia realmente interessado.
– Quaisquer delas. – ele respondeu.
[continua]

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