
Por Olímpio Cruz Neto
As últimas pesquisas eleitorais mostram um cenário de confronto e divisão clara do Brasil. Recentemente, o jornalista Miguel do Rosário identificou, com razão, a resiliência de uma base social que se recusa a abandonar o projeto liderado por Lula. Trata-se, de fato, de um fenômeno de memória e resistência. Mas a análise política brasileira segue presa a um vício de origem: o excesso de foco no software — narrativa, desejo, identidade — e o desprezo recorrente pelo hardware — infraestrutura material, logística e segurança de suprimentos. Os dados recentes do Datafolha ajudam a recolocar o debate em termos mais duros. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados no segundo turno (45% a 46%), enquanto ambos carregam níveis de rejeição próximos de metade do eleitorado (48% e 46%, respectivamente). Isso não descreve apenas uma disputa acirrada. Mostra o sistema político comprimido ao limite, sem margem de erro.
Nesse ambiente, a eleição deixa de ser decidida pela força das bases e passa a depender do comportamento de um eleitorado instável — menos ideológico, mais sensível à experiência concreta da vida cotidiana. O mal-estar em setores da sociedade, sobretudo nos grandes centros urbanos, não é ruído. É sinal. Ignorá-lo, a seis meses da eleição, não é erro de interpretação. É risco estratégico.
O governo opera hoje sob a premissa implícita de que indicadores macroeconômicos positivos — crescimento, queda do desemprego, inflação sob controle relativo — constituem uma forma de blindagem política. A evidência empírica aponta em outra direção: a percepção difusa de que a vida não melhorou na velocidade prometida ao longo dos últimos três anos. O eleitor não reage a séries históricas. Mas ao fluxo diário de renda, consumo e segurança. E é nesse fluxo que surgem sinais de desgaste.
Enquanto o debate se concentra em agendas de longo prazo — transição energética, infraestrutura ferroviária — e em medidas de amortecimento de preços, o país convive com uma vulnerabilidade estrutural mais imediata: a dependência de derivados de petróleo, especialmente o diesel.
O Brasil exporta óleo bruto, mas permanece exposto na etapa crítica do refino e da oferta de combustíveis. Esse diagnóstico não é novo. No artigo O sequestro do diesel, mostrei como este derivado deixou de ser apenas insumo e passou a funcionar como vetor de instabilidade macroeconômica, transmitindo choques externos para transporte, alimento e inflação percebida. Na sequência – em A crise que o Brasil ainda não entendeu –, argumentei que o problema deixou de ser apenas preço e passou a ser físico: perda de capacidade, ruptura logística e recomposição lenta da oferta global.

Volto ao ponto porque o tempo encurtou — e os sinais já começaram a aparecer.
Em um cenário externo tensionado, o risco central já não é apenas de preço. É de disponibilidade — e, sobretudo, de tempo de resposta. O ponto central é simples — e subestimado: o problema deixou de ser preço e passou a ser disponibilidade física.
Não se trata, neste momento, de afirmar um colapso iminente. Mas já não é possível tratar o problema como marginal. O que está em curso é a redução acelerada da margem de segurança operacional de um sistema altamente dependente do transporte rodoviário. Em um país como o Brasil, isso não é detalhe técnico. É a condição mínima de funcionamento do país.
A resposta do governo tem se concentrado em instrumentos de amortecimento de preços, com forte ênfase em instrumentos fiscais e gestão de preços. Mas a pergunta estrutural permanece sem resposta clara: existe um plano para garantir continuidade física de abastecimento se a disrupção externa se prolongar?
Há ainda uma dimensão menos visível — e, por isso mesmo, mais negligenciada: o campo.
A dependência externa de fertilizantes coloca a próxima safra sob risco indireto, caso a instabilidade geopolítica no Golfo Pérsico continue a afetar cadeias de produção, financiamento e transporte. Diferentemente do combustível, cujo impacto é imediato, o efeito sobre fertilizantes é defasado. Planta-se hoje, colhe-se meses depois.
Isso significa que decisões — ou omissões — tomadas agora podem se traduzir em pressão sobre preços de alimentos já dentro do calendário eleitoral. Não é um cenário inevitável. Mas é um risco que, a essa altura, já deveria estar no centro da coordenação estratégica do governo.
A questão central é esta: os dados do Datafolha revelam uma eleição sem folga. Em um ambiente assim, não é necessário um colapso para alterar o resultado. Basta um choque relevante na vida cotidiana — no combustível, no frete, no supermercado — para deslocar o comportamento do eleitor marginal.
A “máquina” da oposição atua como amplificador. O vetor decisivo continua sendo a experiência concreta da população.
O governo parece apostar na combinação de memória política e estabilidade macroeconômica como base para 2026. Mas o tempo político não é mais o mesmo. A janela de correção está se fechando.
A questão central já não é narrativa. É capacidade de garantir o funcionamento regular da vida econômica sob condições externas adversas. Os efeitos da crise no Oriente Médio ainda não se materializaram plenamente — e é exatamente por isso que o risco é maior: quando aparecerem, o tempo de reação será curto.
Sem um plano claro para lidar com vulnerabilidades materiais — energia, logística e insumos —, o governo se expõe a um tipo de desgaste que nenhuma comunicação consegue reverter no curto prazo. Em um sistema comprimido, o decisivo não é o sonho que se projeta, mas o fluxo que se sustenta.
A eleição de 2026 não será decidida pela memória do passado, mas pela estabilidade dos próximos meses. E, nesse horizonte, o problema já não é político no sentido clássico, mas operacional. E isso significa que operação, ao contrário da narrativa, não admite atraso — e não perdoa erro de tempo.