Eleições EUA: o que está em jogo para o povo estadunidense e para a América Latina?

Biden e Trump. Foto: MANDEL NGAN, JIM WATSON / AFP

Originalmente publicado em BRASIL DE FATO

Por Giovani del Prete e Mariana Davi Ferreira

Nesta terça-feira, 3 de novembro, o povo dos Estados Unidos viverá o Dia D das eleições presidenciais, tendo uma ideia de quem vencerá o pleito. De um lado, o republicano Donald Trump, que tenta reeleição e possui 42% das intenções de voto, segundo as últimas pesquisas. Do outro, o democrata Joe Biden, que foi vice-presidente na administração Barack Obama, com 54% das intenções de voto. O resultado das eleições sairá nas próximas semanas, depois que todos os votos enviados pelos correios forem contabilizados em cada estado.

O sistema eleitoral estadunidense é bem diferente do brasileiro. Além dos votos da população, o que decide as eleições são os votos dos colégios eleitorais em cada um dos 50 estados do país. Ao todo, são 538 delegados distribuídos por todo o país. O número de delegados em cada estado é definido a partir de um cálculo que considera o número de habitantes, de membros da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos e de membros do Senado que representam o estado. Vence as eleições o candidato que atingir 50% mais 1 de delegados, ou seja, 270 delegados.

Destacamos dois outros elementos das eleições dos Estados Unidos. O primeiro é que o voto é facultativo. A população, portanto, não é obrigada a votar. Nas últimas eleições presidenciais, em 2016, 61,4% da população apta a votar participou das eleições. Outra peculiaridade é a votação antecipada. Das 240 milhões de pessoas aptas a votar neste pleito, cerca de 70 milhões já votaram antecipadamente, seja presencialmente, seja através dos correios. A expectativa é de que 65% do eleitorado participe destas eleições, algo em torno de 156 milhões de pessoas.

Trump ou Biden?

Mesmo que Trump e Biden tenham grandes diferenças em alguns temas, como a questão ambiental, por exemplo, ambos os candidatos representam os interesses das classes dominantes dos Estados Unidos. Nenhum dos dois possuem uma plataforma comprometida com o enfrentamento das desigualdades sociais ou com a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora do país. Democratas e Republicanos no poder cumprem o mesmo papel de garantir as condições de acumulação de capital de grandes empresas que enriquecem às custas da precarização – cada vez mais intensa – das condições e relações de trabalho.

Do ponto de vista das diferenças entre os candidatos, o tema do Acordo de Paris é um bom exemplo. Foi durante a administração Obama que os Estados Unidos foi um dos que lideraram a construção deste acordo que envolve 195 países, com o compromisso de reduzir a emissão de gases de efeito estufa para retardar o aquecimento global. Donald Trump, filiado às ideias negacionistas, de que o aquecimento global é uma farsa, retirou o país deste acordo, alegando que as cláusulas ambientais impedem o desenvolvimento da economia do país. Por sua vez, Joe Biden propõe a volta dos Estados Unidos ao acordo, ao mesmo tempo em que promete uma série de investimentos em energias limpas no país.

Vivemos tempos tão difíceis, que mesmo com grandes semelhanças entre Biden e Trump – no que tange à garantia os interesses do capital e à manutenção de uma ação externa imperialista -, Biden representa a possibilidade de retirar da Casa Branca um presidente xenofóbico, homofóbico e negacionista frente a pandemia da covid-19.

Desde a eleição em 2016, Trump não economiza esforços para promover sua agenda de estímulo ao conflito violento e de ofensiva ideológica contra as forças progressistas e democráticas. Caso Trump se reeleja, a ofensiva da política externa estadunidense continuará incidindo sobre os países que representem empecilhos aos seus interesses externos. Na Venezuela: uma revolução bolivariana que atrapalha os interesses do imperialismo em controlar o petróleo. Na Bolívia: o povo reelege o MAS que dificultará seus interesses em explorar o lítio no país. A Revolução Cubana que resiste ao sangrento embargo norte-americano.

Além da resistência latino-americana, China, Rússia, Irã e Síria são exemplos de países que enfrentam cotidianamente as constantes ofensivas de ingerência externa, sendo submetidos à estratégia de máxima pressão para se curvarem aos desígnios de Washington. Entre Trump ou Biden, as lideranças de extrema-direita de todo o mundo seguramente preferem Trump. Só para citar alguns nomes, Bolsonaro, Modi (Índia), Duterte (Filipinas), Orban (Hungria), Netanyahu (Israel), Juan Guaidó (Venezuela), Duque (Colômbia) estarão melhores posicionados para empreender seus projetos reacionários em seus países caso Trump seja reeleito. Não podemos ignorar que Donald Trump é o responsável por difundir o racismo contra o povo chinês ao se referir ao covid-19 como o “vírus chinês”, algo repetido como um mantra pelos eleitores da extrema-direita mundo afora.

O que está em jogo para o povo estadunidense?

Para entender melhor o cenário pré-eleições, conversamos com Manolo de los Santos, 31 anos, militante do Popular Education Project nos Estados Unidos. Manolo chama atenção para os dados da realidade: são 65 milhões de desempregados, 140 milhões de pessoas na pobreza e quase 230 mil mortes em consequência da covid-19. Esses dados evidenciam a profunda crise que o povo atravessa nos EUA.

Os desafios para a juventude nos Estados Unidos são ainda maiores. Por exemplo, um jovem que estude por quatro anos no ensino superior acumulará uma dívida impagável, algo entre 200 mil e 300 mil dólares, mais de 1,1 milhão de reais. Somado ao quadro de desemprego e de pobreza, as perspectivas de sucesso para um jovem da classe trabalhadora não são nada animadoras. “Não por acaso que menos de 40% das pessoas com menos de 35 anos participam das eleições, a descrença no sistema bipartidário é cada vez mais latente”, explica Manolo de los Santos. Nem Biden, nem Trump  apresentam uma agenda que faça o enfrentamento das causas dos problemas que esses dados evidenciam.

O que está em jogo para o povo dos Estados Unidos é a esperança no futuro, fato que cada vez mais é dificultado pelo sistema político e econômico que só aprofunda as desigualdades sociais no país. Reflexo dessa situação foi a eclosão de protestos populares em mais de 200 cidades após o assassinato de George Floyd em Minneapolis, mais uma vítima do sistema policial racista do país. As manifestações antirracistas acompanharam o processo eleitoral deste ano.

No dia 26 de outubro, a população voltou às ruas depois de Walter Wallace Jr., um homem negro, ser alvejado com dez tiros por dois policiais da Filadélfia. O assassinato ocorreu sem que ele representasse uma ameaça iminente aos policiais. A prefeitura da Filadélfia decretou toque de recolher para evitar mais manifestações. Mas o povo não se calou. A constante mobilização luta contra a violência brutal do sistema policial dos EUA que tem como foco a população jovem, preta, LGBT, imigrante, da classe trabalhadora. Além disso, as manifestações demonstram um descrédito no sistema político-econômico dos Estados Unidos e exigem a construção de caminhos para melhoria nas condições de vida do povo.

Duas faces da mesma moeda para a América Latina

A agenda dos candidatos para a política externa dos Estados Unidos nos próximos anos diverge em relação aos métodos e possíveis alianças, mas possui o principal ponto em comum: manutenção da política imperialista. Concordam que os EUA precisa adotar uma posição dura em relação à China, mesmo que por métodos diferentes. Em relação à América Latina, ambos continuam a ver a região como um quintal dos Estados Unidos. Trump, caso eleito, continuará a ofensiva contra a Venezuela e observa com cautela o avanço da China na região. Biden também tem um olhar atento para a América Latina. Quando foi vice-presidente, era o emissário especial do presidente Barack Obama para assuntos latino-americanos e visitou 16 vezes a região. Biden afirma que irá rearticular campanhas “anticorrupção” nos países da região, caso vença as eleições. Assim, mesmo com um “verniz mais democrático”, o Partido Democrata possui a mesma direção de desrespeitar a soberania e autodeterminação dos Estados latino-americanos, além de financiar o estrangulamento das forças populares em cada canto da região.

É nosso dever jamais tirar de perspectiva o peso da Doutrina Monroe — que existe desde 1823, quase 200 anos — no que diz respeito à mobilização das forças reacionárias em Nuestra America, com o objetivo de inviabilizar experiências de autonomia e resistência ao imperialismo. Assim como os Estados Unidos apoiaram e financiaram os golpes de Estado que instalaram ditaduras em diferentes países da América Latina no século passado; no século 21 continuamos a ver a manutenção dessas práticas, agora de maneira mais sofisticada. Como diz Vijay Prashad, as “balas de Washington” são “balas que assassinaram processos democráticos, que assassinaram revoluções e que assassinaram esperanças.”

Não faltam exemplos da águia imperialista intervindo em nossa história recente: é importante que não esqueçamos. Tentativas de golpe frustradas com nítida participação dos Estados Unidos na Venezuela, em 2002 e 2019, na Bolívia, em 2008. Golpes efetivados como Honduras (2009), Paraguai (2012), Brasil (2016) e Bolívia (2019). Bloqueios e sanções econômicas sangrentas em Cuba e na Venezuela. São exemplos do uso sofisticado de diferentes armas que o imperialismo faz para garantir seus interesses político-econômicos, mesmo que isso destrua vidas.

Entender as eleições dos EUA é estudar parte da política do Estado inimigo. Por isso, após a conclusão das eleições presidenciais dos Estados Unidos, qualquer que seja o resultado, é preciso estarmos atentos. O imperialismo estadunidense, democrata ou republicano, continuará a agir sobre nossos territórios como se não fôssemos povos e Estados soberanos. De nossa parte, temos que denunciar esta realidade e construir força social anti-imperialista para derrotar este sistema. Cabe a nós sermos resistência ao imperialismo!