Eleições nos EUA: virada à esquerda no Texas ameaça refúgio de Eduardo e Flávio Bolsonaro

Atualizado em 3 de novembro de 2026 às 4:56
Flávio e Eduardo Bolsonaro em frente à Casa Branca, nos EUA

O avanço de candidatos democratas nas pesquisas eleitorais do Texas, nos Estados Unidos, vai alterar o cenário político do estado onde Eduardo Bolsonaro (PL) passou a viver. Condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em junho de 2026 a quatro anos de prisão em regime semiaberto, o ex-deputado brasileiro acompanha uma disputa que ameaça décadas de domínio republicano e pode ampliar a pressão política sobre sua permanência em território americano.

Levantamentos divulgados às vésperas das eleições legislativas desta terça-feira (3) apontam vantagem do democrata James Talarico na corrida por uma cadeira no Senado dos Estados Unidos. Na disputa pelo governo estadual, pesquisa da AtlasIntel também indica liderança da democrata Gina Inojosa. O avanço de candidaturas identificadas com a esquerda ocorre em um estado que votou em Donald Trump por uma diferença de aproximadamente 14 pontos percentuais na eleição presidencial de 2024.

Eduardo Bolsonaro utiliza o estado como base nos Estados Unidos, enquanto aliados de sua família mantêm proximidade com setores do Partido Republicano. Uma vitória democrata enfraquece esse ambiente político favorável, embora não implique automaticamente qualquer alteração na situação migratória ou judicial do brasileiro.

Nas redes sociais, campanhas identificadas pela hashtag #DeportTheBolsonaros passaram a defender a expulsão de integrantes da família Bolsonaro dos Estados Unidos. Eduardo articulou a fuga de seu irmão para os Estados Unidos após perder a eleição presidencial.

Talarico abre vantagem sobre aliado de Trump

Na disputa pelo Senado, James Talarico, de 37 anos, aparece à frente do procurador-geral do Texas, Ken Paxton, de 63, um dos principais aliados de Donald Trump no estado.

Pesquisa da AtlasIntel realizada entre 28 de outubro e 1º de novembro, com 1.678 entrevistados, aponta Talarico com 51,3% das intenções de voto, contra 45,4% de Paxton. A vantagem é de 5,9 pontos percentuais, com margem de erro de dois pontos.

O levantamento do New York Times/Siena College apresenta uma diferença ainda maior. Nele, Talarico registra 50% das intenções de voto, enquanto Paxton aparece com 43%. A pesquisa ouviu 1.215 eleitores entre 27 de outubro e 1º de novembro, com margem de erro de 3,4 pontos percentuais.

Outros institutos identificaram cenário semelhante. A Data for Progress apontou vantagem de 49% a 45% para o democrata, enquanto uma pesquisa da CNN registrou 49% a 43%. A YouGov mostrou Talarico com 51%, contra 47% do republicano.

Democrata defende taxação dos ricos e serviços públicos

Ex-professor da rede pública, Talarico representa parte da região de Austin na Câmara estadual do Texas. Sua campanha combina críticas à concentração de riqueza com propostas de ampliação de serviços públicos.

O democrata defende a revogação de benefícios tributários concedidos ao 1% mais rico da população, a criação de um sistema universal de atendimento infantil e a imposição de limites aos juros cobrados pelos cartões de crédito.

Na área da educação, posiciona-se contra políticas que transferem recursos públicos para escolas privadas por meio de vouchers. Também defende reformas no sistema de saúde estadunidense e mudanças nas regras de funcionamento do Congresso, incluindo a proibição da negociação de ações por parlamentares.

Sua candidatura ganhou espaço entre eleitores insatisfeitos com o Partido Republicano e com a condução política de Trump.

Em um comício realizado em Lubbock, em 27 de outubro, diante de aproximadamente 4 mil pessoas, Talarico afirmou que os texanos estão preparados para uma mudança.

“Estamos cansados do extremismo e da corrupção. Estamos cansados da política da divisão e estamos prontos para algo novo”, declarou, em tradução do inglês.

Democratas também disputam o governo do Texas

Na eleição para o governo estadual, a democrata Gina Inojosa aparece como uma das candidaturas que podem romper a hegemonia republicana, segundo as informações sobre pesquisas da AtlasIntel.

De origem latina e identificada com pautas progressistas, Inojosa defende maior tributação dos setores mais ricos, fortalecimento das escolas públicas e ampliação do acesso à saúde.

Sua candidatura também critica a influência de grandes grupos econômicos sobre as decisões do governo estadual e as políticas que favorecem a privatização de serviços públicos.

A eventual vitória de Inojosa teria significado histórico para o Texas. Os democratas não conquistam um cargo estadual eleito pelo voto popular desde 1994.

O estado se tornou um dos principais centros de poder do Partido Republicano, tanto pelo peso econômico quanto pela influência de sua bancada no Congresso e pela importância no Colégio Eleitoral estadunidense.

A disputa de 2026, portanto, vai além da escolha de um governador ou senador. Ela coloca em questão a continuidade de uma estrutura política que sustenta parte importante da força nacional de Trump.

Gina Inojosa

Republicanos admitem risco de derrota

A possibilidade de vitória democrata já provoca preocupação entre dirigentes republicanos. O senador Ted Cruz reconheceu, em seu podcast, que a disputa no Texas está extremamente apertada. Ele também alertou que os democratas estão conseguindo mobilizar seus eleitores em proporção superior à dos republicanos.

“Podemos perder o Texas”, afirmou Cruz. O republicano Don Huffines, candidato ao cargo de controlador das contas públicas do estado, também publicou um alerta sobre o desempenho de seu partido.

“Estamos perdendo o Texas”, escreveu. Para Huffines, o estado representa a base política do Partido Republicano e uma derrota poderia comprometer sua força nacional.

Trump participou pessoalmente da campanha de Paxton. Em um comício em Lubbock, pediu que seus apoiadores comparecessem às urnas e reconheceu a proximidade da disputa.

A mobilização eleitoral atingiu números elevados. Mais de 7,6 milhões de votos antecipados já haviam sido registrados no Texas, volume equivalente a mais de 94% de toda a participação nas eleições legislativas de 2022.

O que uma vitória democrata significaria para Eduardo Bolsonaro

Uma eventual vitória de Talarico para o Senado e de Inojosa para o governo estadual amplia a presença de políticos críticos ao bolsonarismo e ao trumpismo em uma região tradicionalmente associada à direita republicana.

O cenário pode se alterar de forma definitiva caso o Partido Democrata conquiste a Presidência dos Estados Unidos em 2028. Uma nova administração federal terá condições de rever prioridades diplomáticas e migratórias. Há alguns meses, Steve Bannon alertou que ele e seus aliados devem ir para a prisão se não vencerem.

Para Eduardo e Flávio Bolsonaro, há ainda o risco de investigações sobre desvio de dinheiro dentro dos EUA. A temível IRS é um pesadelo para a família. Daí vêm os riscos de deportação, extradição ou prisão. Qualquer medida dependeria de processos específicos e de fundamentos legais.

A possibilidade de uma vitória democrata no Texas tem um significado particular para o bolsonarismo: o fim do sonho americano.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.