“Eleitor não é idiota”. Por Helena Chagas

Atualizado em 5 de julho de 2022 às 17:54
Jair Bolsonaro com Paulo Guedes, aplicativo do auxílio emergêncial e fachada da Caixa Econômica (Foto: Reuters | Agência Senado)

A pergunta de R$ 41 bilhões – valor da PEC Kamikaze – hoje é se o pacote eleitoreiro de Jair Bolsonaro, com medidas como o aumento do Auxílio Brasil em R$ 200, vai ajudar e se reverter em pontos para ele na disputa presidencial. Quem entende da cabeça do eleitor acha que muito pouco, ou mesmo nada. “O sujeito tratou mal o eleitor durante quatro anos, mostrou que não cuida das pessoas. Aí dá um dinheirinho a mais no final e acha que vai mudar o voto delas?”, indaga o cientista político Alberto Carlos Almeira, para concluir: “O eleitor não é idiota”.

Almeida, junto com o geógrafo Tiago Garrido, acaba de terminar um estudo detalhado sobre todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, identificando padrões de comportamento e temas que são relevantes para o eleitor fazer a sua escolha. No livro “A mão e a luva: O que elege um presidente”, que estão lançando na Câmara dos Deputados nesta quarta, mostram que, a partir de determinados fatores, os resultados são previsíveis.

As eleições não são lá essa “caixinha de surpresas” que alguns apontam. Para eles, a opinião pública varia sobretudo em função do desempenho da economia e da percepção que os eleitores têm sobre isso. A cada pleito, é preciso identificar se a eleição “é de mudança ou de continuidade”. A eleição e a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, a bordo do Plano Real, por exemplo, foram de continuidade. A primeira eleição de Lula foi regida pela vontade de mudança, embora sua reeleição e a eleição de Dilma Rousseff tenham tido como anseio maior a continuidade.

E agora? Para os dois pesquisadores, a mão que vai vestir a luva de 2022 quer mudança – de novo, porque Almeida e Garrido denominam a eleição de Bolsonaro em 2018 de “eleiçnao do soco inglês”, tal o grau de revolta contra o sistema. Quase quatro anos de Bolsonaro, porém, fizeram esse pêndulo oscilar de novo diante de variáveis como a inflação e a queda do poder aquisitivo da população. E parece tarde demais para que esse quadro seja revertido a tempo de reeleger Bolsonaro.

É o conjunto da obra da questão econômica e seu impacto na vida da população que irá pesar, e por isso dificilmente um aumento em auxílios e benefícios a esta altura vai mudar a percepção das pessoas. “Muito irão se perguntar: por que não deu isso anres?”, diz Garrido.

Eles comparam também o atual Auxîlio Brasil de Bolsonaro ao Bolsa Família de Lula, que foi importante em sua reeleição, em 2006. “Naquele momento, o governo Lula já havia reduzido a inflação de 12,5% que recebeu a algo em torno de 3,5% em seu primeiro governo. O emprego cresceu e a situação econômica melhorou de modo geral. Não foi só o Bolsa Família”, afirma Almeida.

Os pesquisadores comparam também o atual Auxílio Brasil de Bolsonaro com o Auxîlio Emergencial de R$ 600 dado na pandemia, que conseguiu elevar em alguns pontos a aprovação do governo. Há uma grande diferença entre os dois: o Emergencial cobriu nada menos do que 60 milhões de pessoas, enquanto o sucessor do Bolsa Família não chega a 20 milhões de beneficiários. Sem contar o tempo que o primeiro benefício levou para repercutir favoravelmente na popularidade presidencial: cerca de quatro meses.

Publicado originalmente no site Jornalistas pela Democracia

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