“Elevada coincidência”: os encontros de Vorcaro com Castro e a intermediação de um lobista

Atualizado em 27 de maio de 2026 às 10:28
Daniel Vorcaro e Cláudio Castro. Foto: reprodução

A Polícia Federal apontou uma “elevada coincidência temporal” entre encontros do então governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) com o banqueiro Daniel Vorcaro e a liberação de aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master. A avaliação consta da decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero.

Segundo a decisão, os investigadores identificaram “sincronismo entre encontros mantidos entre ambos e os aportes financeiros subsequentes do RPPS”. Para a PF, a relação entre Castro e Vorcaro “não se limitou a contatos institucionais”, mas envolveu “vínculo pessoal estreito”, com encontros frequentes, inclusive “em ambientes privados e no exterior”, custeados pelo banqueiro.

A investigação sustenta que esse relacionamento teria garantido o “alinhamento político necessário” para liberar os aportes e influenciar mudanças internas no Rioprevidência. O fundo é responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de servidores estaduais do Rio e atende cerca de 237 mil aposentados e pensionistas civis e militares.

O empresário Ricardo Siqueira Rodrigues, apontado como lobista de Vorcaro e intermediário entre ele e Castro nesses enconctros, também virou alvo da operação. Segundo os investigadores, ele recebia comissão do banqueiro para captar recursos de fundos de previdência para o Master.

“Rodrigues, já anteriormente investigado à extensão por atuação em fraudes, realizou captação de clientes para o Banco Master e foi remunerado para tanto com comissão de 0,6% sobre os valores angariados”, afirmou Mendonça.

Ricardo Siqueira Rodrigues, intermediário de Castro e Vorcaro. Foto: reprodução

A PF apontou ainda que Rodrigues controlava a empresa Mídias Promotora, que recebeu R$ 126 milhões do Master entre 2022 e 2025. A firma, segundo os investigadores, ajudava a “escoar recursos oriundos das operações fraudulentas” entre fundos de previdência e o banco, “facilitando a lavagem de ativos e o repasse de valores aos agentes envolvidos”.

O histórico de Rodrigues inclui investigações anteriores envolvendo fundos de previdência. Em 2005, ele foi um dos alvos da CPI dos Correios, que revelou o mensalão. À época, segundo o relatório da CPI, era dirigente de uma corretora que promoveu “diversas operações atípicas no mercado financeiro”, causando “perdas aos fundos de pensão”.

A Fundação Rede Ferroviária de Seguridade Social (Refer) teve rombo de R$ 2,6 milhões em valores da época, e Rodrigues foi multado pela CVM.

A PF também cita mudanças na cúpula do Rioprevidência pouco antes das operações financeiras investigadas. Segundo a decisão, houve nomeação estratégica de dirigentes para cargos-chave, como presidência, diretoria e gerência de investimentos. Os novos gestores teriam adotado decisões contrárias à política conservadora até então vigente no fundo.

A investigação menciona credenciamento acelerado do Banco Master, ausência de análises técnicas estruturadas, falta de comparação com alternativas de mercado, avaliações de risco consideradas insuficientes e continuidade dos aportes mesmo após alertas de órgãos de controle.

O documento afirma que o Banco Master pediu credenciamento ao Rioprevidência no mesmo dia em que Eucherio Lerner Rodrigues assumiu a diretoria de investimentos, em 4 de outubro de 2023. A PF calcula que o fundo destinou R$ 3,69 bilhões ao Master, em Letras Financeiras e fundos ligados ao grupo.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 32 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.