Em artigo, Raí diz que Brasil vive “duplo flagelo” e critica Bolsonaro: “Ele nos destrói”

Publicado no Le Monde

Bolsonaro causa aglomeração em Bagé (RS)

Por Raí Oliveira*

Perdoe-me, Monsieur Camus. Perdoai-me também vós, os seus milhões de admiradores… Gostaria de pedir a vossa licença para repetir aqui algumas das vossas palavras, para reivindicar a vossa audácia, para suplicar, como pudestes fazer perante as autoridades do desumano, para lutar, à tua imagem, como um rebelde do mundo que soube recusar a heresia e as suas terríveis consequências.

O brasileiro que sou, como tantos outros, encontra-se assediado, nestes tempos sombrios, por um duplo flagelo cujas devastações são apenas o acréscimo de nossos próprios erros coletivos. Além da “praga” biológica, essa epidemia tão mal administrada que causou a mais grave crise de saúde da história do meu país, estamos sofrendo de outro mal, muito mais mortal no longo prazo.

Um mal que nos isola diplomaticamente, um mal que atormenta insidiosamente a Amazônia e persegue quem a protege. Um mal que permite a mineração em reservas indígenas, e prefere árvores serradas a árvores vivas… Um mal castrador das liberdades, que ameaça a democracia e reaviva a censura odiosa, promove a intolerância, a homofobia, o machismo, a violência. Ao aprisionar nossa razão e nosso bom senso, ele nos destrói.

Esse mal, que tem suas próprias variantes, é obra de um clã. Associado ao distanciamento, ao negacionismo, à desinformação, à mentira, acaba suprimindo, ainda que temporariamente, nossa revolta, nossa resistência e nossa indignação.

Para citar Camus: “As pragas, de fato, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar em pragas quando elas caem sobre a sua cabeça. (…) Quando estala uma guerra, as pessoas falam: ‘Não vai durar, é muito estúpido’. E sem dúvida uma guerra é certamente muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez sempre insiste, a gente perceberia se nem sempre pensasse em si mesmo”.

Repressão, agressão, perseguição

Sim, em casa, do outro lado do Atlântico, este oceano que nos separa e nos aproxima, amigos franceses, o mal está em todo o lado: nas questões do ambiente, dos direitos humanos, dos negócios externos. É a ideologia que é perversa, ou quem a teorizou, ou mesmo quem a usa conscientemente?

Na minha democracia, jovem e portanto frágil, ouvimos recentemente, na nossa própria rede de televisão, um certo Secretário de Estado da Cultura parafraseando um discurso de Joseph Goebbels. Joseph Goebbels, ministro de Adolf Hitler, responsável pela propaganda… Goebbels, o anti-semita, a maldita alma da pior ideologia.

Camus, sempre: “Já tinham visto crianças morrerem deste terror, há meses, não tinham escolhido, mas nunca tinham acompanhado seu sofrimento minuto a minuto, como vinham fazendo desde manhã”.

Devemos, portanto, resistir a essa praga brasileira que veste traje escuro e mascara seu sorriso astuto, ataca por meio da repressão, agressão, perseguição, usando os “resquícios” legais de um Brasil outrora autoritário, como esta Lei de Segurança Nacional, herdada do trevoso período da ditadura militar. E eu pensei que depois de vinte anos de tortura, tantos assassinatos e censuras, nunca mais sofreríamos com tudo isso…

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Esse foi o slogan da última campanha presidencial, que viu a vitória do indizível. Alguns de nós imaginamos que por trás das palavras escondia-se a putrefação vindoura de nossa carne e alma. O chamado salvador não é um e, diga-me, quem seria esse Deus capaz de destruir e colocar a vida humana em um nível tão desprezível?

“Ele sabia o que esta alegre multidão não sabia, e que se pode ler nos livros, que o bacilo da peste nunca morre ou desaparece, que pode permanecer por décadas adormecido nos móveis e na roupa de cama, que ele espera pacientemente nos quartos, o os porões, os baús, os lenços e a papelada, e que, talvez, chegasse o dia em que, para azar e ensino dos homens, a peste despertaria seus ratos e os mandaria para morrer numa cidade feliz”.

Por anos os ratos estiveram lá

Permita-me completar, por meu país perigosamente distraído, e por você, cujo olhar às vezes se desvia: o Brasil que todos nós queremos e de que o mundo precisa, negou o horror que se aproxima. Durante anos, porém, os ratos estiveram ali, mostrando o rosto, revirando os olhos, mostrando os dentes, afiando as garras. Não prestamos atenção. Será que os meus concidadãos e eu, e mesmo o nosso Parlamento, nos tornamos cúmplices por não querermos ver a extensão do perigo que agora nos rodeia, por nos submetermos a um poder manchado com o sangue indelével dos crimes já cometidos?

Não! Eu sei que no longo prazo, e seja qual for o país, o homem corajoso, o cientista, o resistente juntos conseguem vencer o mal. Aqui, não será tão simples, porque carrega nas costas a extrema desigualdade, econômica, social e educacional que esteriliza os comportamentos e aniquila as vontades de ruptura.

Cada praga causa separações profundas e dolorosas. Já estamos isolados, tratados como párias… E acima de tudo separados de nós mesmos, afastados do Brasil para que nos tornemos, da nossa essência, da nossa natureza, do país do futuro e de um mundo mais humano e justo, da País exuberante, a alegria de viver que te faz sonhar, dançar, brincar, cantar e encantar. Ao hastearmos a bandeira branca da nossa passividade, ao nos rendermos ao mal que nos assedia, mostramos o pior de nós mesmos. O meu país, o da miscigenação, não pode negar o seu próprio destino!

“O flagelo não é compatível com o homem, por isso dizemos a nós mesmos que o flagelo é irreal, é um pesadelo que vai passar. Mas nem sempre passa e, de pesadelo em pesadelo, são os homens que passam…”

Como se livrar desse pesadelo? Acima de tudo, não fiquemos anestesiados, amordaçados por uma “angústia silenciosa”. Sim, devemos primeiro lutar contra a estupidez que desencoraja o uso de máscaras, que mata ou deixa morrer, e ainda insiste! Devemos então nos vacinar e, juntos, expulsar o flagelo maligno de nossa carne.

Mas o trabalho ainda não estará concluído: teremos então que aniquilar esta praga maior de todos os tempos, aquela que, além do microscópico agente infeccioso, gangrena nosso corpo social. Porque não basta identificar a sequência do vírus que nos impõe as suas leis e viola os nossos direitos, devemos agora encontrar o antídoto para não evoluirmos, contra nossa vontade, em portadores doentios de uma doença que nos destruiria. Não queremos, por culpa de alguns criminosos, nos tornar nossos próprios algozes.

“A partir daquele momento, pode-se dizer que a praga era a nossa preocupação”.

*Ex-jogador e ex-diretor de futebol do São Paulo, Raí é cofundador e presidente da Gol de Letra, uma fundação que atende crianças e jovens de meios desfavorecidos.