Em ato sobre o Holocausto, Tarcísio ignora Gaza e fala sobre “ódio” no Brasil

Atualizado em 26 de janeiro de 2026 às 9:20
Tarcísio de Freitas, governador de SP. Foto: reprodução

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou no último domingo (25) que “não podemos permitir que o Brasil se perca no ódio”, ao discursar durante o Ato em Memória às Vítimas do Holocausto, realizado na capital paulista. A fala ocorreu em um contexto de alerta contra o crescimento do extremismo e da intolerância, com referências diretas ao cenário internacional e ao massacre de palestinos no Oriente Médio, mas tratado pelo bolsonarista como uma “reação” de Israel contra o Hamas.

Ao retomar um questionamento feito pela presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo, Célia Parnes, Tarcísio refletiu sobre a capacidade da sociedade de reconhecer sinais de novos episódios de violência extrema. Segundo o governador, no passado “as lideranças não o sabiam. Hoje, talvez, nós não estamos (preparados)”.

Ele acrescentou que, mesmo diante de evidências, há uma tendência à negação. “Hoje, às vezes, não percebemos o que está acontecendo. A gente nega”, afirmou, ao mencionar o ataque do grupo terrorista Hamas contra Israel em outubro de 2023. No episódio, 1.665 pessoas foram mortas. Já na reação o estado sionista de Israel, estima-se que mais de 67 mil palestinos foram assassinados diretamente, desconsiderando as mortes por fome, desidratação e ausência de atendimento médico.

Em seu discurso, o governador destacou o contexto diplomático anterior ao ataque, citando acordos de paz firmados por Israel com países da região. “Israel tinha firmado uma acordo de paz com os Emirados Árabes, a Jordânia, o Egito. E se encaminhava para assinar um acordo de paz com a África Saudita quando foi invadido pelo Hamas. Isso não foi um fracasso. Isso foi encomendado por alguém que quer implantar o ódio”, declarou.

Em seguida, questionou a reação internacional ao episódio. “Eu percebi isso. Como isso não foi percebido? Como isso pode ser negado? Como a gente pode negar o direito de Israel a defender o seu território?”, disse.

Destroços em Gaza, região palestina destruída por Israel. Foto: Maher Alabed/NRC

Tarcísio também agradeceu à comunidade judaica pela contribuição histórica ao desenvolvimento de São Paulo, com destaque para áreas como a saúde, a ciência e a educação. Ao encerrar sua participação, reforçou o compromisso institucional do governo paulista com a proteção dessa comunidade.

“A minha missão aqui é renovar o meu compromisso de combate ao antissemitismo, proteger a comunidade judaica e fazer com que este seja um local onde vocês possam trabalhar, estudar e, principalmente, ser felizes”, afirmou.

O presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), Cláudio Lottenberg, também discursou no evento e iniciou sua fala dirigindo-se diretamente ao governador, destacando a presença frequente de Tarcísio em atos da comunidade judaica.

Ao abordar o cenário global, Lottenberg afirmou que há clareza sobre os agentes por trás da disseminação do extremismo. “Sabemos muito bem quem oprime, quem financia, quem arma e quem se beneficia desses grandes negócios”, disse.

Lottenberg criticou o que classificou como uma distorção do debate público internacional. “Presenciamos a política das narrativas, que substituíram o debate baseado em fatos. Mesmo assim, seguimos relativizando o extremismo como se fosse apenas uma divergência de natureza ideológica”, afirmou.

Para ele, esse processo contribui para normalizar discursos de ódio e enfraquecer respostas institucionais. Ao concluir, o presidente da Conib defendeu que o combate ao antissemitismo não deve ser instrumentalizado politicamente.

“Essa é uma missão que não é de direita nem de esquerda. É uma missão de uma sociedade que acredita na democracia, na dignidade humana e no respeito”, declarou.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.