Em campanha por Bolsonaro, Record prepara “operação Venezuela” e diretor de RH defende “#elesim”

POR VINÍCIUS SEGALLA

Depois de Edir Macedo declarar apoio ao candidato Jair Bolsonaro em 30 de setembro, a Record TV e o portal R7 transformaram sua cobertura jornalística em linha auxiliar da campanha do deputado do PSL. Primeiro, foram duas entrevistas chapa-branca (sem questionamentos) com Bolsonaro – a mais extensa delas durante o debate de presidenciáveis da TV Globo, a que o candidato do PSL faltou. Depois, no domingo (14), uma reportagem de 12 minutos e 54 segundos tentando associar o ex-presidente Lula ao filho do presidente da Guiné Equatorial. Agora, a emissora prepara, sob clima de segredo, reportagens sobre a Venezuela. 

A suspeita dos próprios jornalistas da emissora é que seja uma tentativa de ligar a crise do regime de Maduro à candidatura Haddad. Para a pauta, foram destacadas duas equipes do Jornal da Record. Uma se deslocou para Roraima e a outra, para a Colômbia. A operação é cercada de segredo.

“É uma ação incomum. Duas equipes e ninguém sabe o que estão fazendo por lá”, contou um jornalista, que preferiu não se identificar por medo de represálias. Segundo o profissional, o clima na redação é “péssimo”. “O apoio do Edir [Macedo] ao Bolsonaro pegou todo mundo de surpresa. De lá para cá, ficou claro que a cobertura mudou. A equipe está desmoralizada”. 

Outros jornalistas ouvidos pelo DCM confirmaram a pressão na cobertura e o temor de represálias caso as ordens da chefia não sejam cumpridas. No núcleo de direção do Grupo Record, há demonstrações explícitas de apoio a Bolsonaro. Márcio Santos, diretor de Recursos Humanos, utilizou em seu perfil de Facebook três temas de perfil favoráveis ao candidato do PSL: “PT não”, “ele, sim – melhor Jair se acostumando” e “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. “Não fazem questão de esconder. Com esse tipo de manifestação, quem não se sentiria ameaçado?”, pergunta um profissional. 

A postura da Record é ilegal. Segundo a lei eleitoral, concessões públicas de rádio e TV – caso da emissora – devem dar tratamento isonômico às diferentes candidaturas. Fere, ainda, o Código de Ética dos Jornalistas, cuja cláusula de consciência dá a direito ao profissional de recusar qualquer tarefa que esteja em desacordo com os princípios da ética profissional ou de suas convicções.

“A gente se pergunta se o TSE não vai fazer nada. É um absurdo atrás do outro e nada acontece”, desabafa um integrante da redação. Até agora, a Justiça Eleitoral não tomou providências. Questionado em 13 de outubro sobre o tratamento diferenciado a Bolsonaro, o Ministério Público Eleitoral disse não ver irregularidade na cobertura da emissora.

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