Em debate em que citou Florestan e Casa Grande & Senzala, Mandetta mostra que se afastar de Bolsonaro é ótimo para a mente

No debate promovido pela Globonews na noite deste sábado, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta não escondeu a contrariedade diante das colocações vulgares que o deputado federal Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania, fazia sobre o combate ao coronavírus. Ambos são médicos. Assim como o senador Humberto Costa, ex-ministro da Saúde do governo Lula, o terceiro debatedor.

Foi impressionante ouvir o ex-ministro, que é do DEM, recomendar a leitura de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e o sociólogo Florestan Fernandes. Osmar Terra defende que a vida volte ao normal, pois, na opinião dele, a quarentena não está evitando as mortes. Mandetta observou que a vida não voltará a ser como era. Então, não há um mundo normal para onde se deve voltar.

Sobre o impacto da quarentena na economia, o ex-ministro disse que deverá haver uma repactuação no mundo. “Vai tudo começar do zero”, disse. A China, os Estados Unidos, a Europa, o Brasil, todos os países, enfim, estão passando por dificuldades. E o Brasil, por conta do negacionismo de Bolsonaro e, de certa forma, também de Osmar Terra, enfrenta sérios problemas agora, e enfrentará problemas maiores ainda quando a pandemia for vencida. Mas não haverá mais, segundo Mandetta, o mundo como conhecemos.

Omar Terra, que foi secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, apresentou cópias de gráficos para tentar dar um verniz de base científica aos absurdos que diz Jair Bolsonaro, com quem ele conversou muito quando Mandetta estava sendo fritado.

O ex-ministro da Saúde poderia ter sido agressivo em relação a Osmar Terra justamente em razão deste fato: o colega de medicina participou ativamente da sabotagem ao seu trabalho, o que ficou claro quando ele e Onyx Lorenzoni, também ministro, vazaram uma conversa entre si para criticar duramente o então ministro e defender e defender a demissão dele.

Fizeram isso da maneira sórdida, com a cumplicidade ou não de um jornalista da CNN Brasil, que telefonou para Onyx, que deixou ligação aberta e passou a conversar com Osmar Terra para que o repórter ouvisse. Foi uma malandragem, um truque para passar a mensagem de que era uma conversa privada. Na conversa, detonaram o colega de governo. 

Mandetta agora está mais solto, mas evitou a crítica direta a Bolsonaro. Disse que a história irá julgá-lo, já que sua posição não é científica, assim como não o é a de Osmar Terra. “Eu fiquei do lado da ciência da saúde e não da ciência política”, afirmou. “Quem errou foi quem acreditou na cantilena de que era mais um vírus”, comentou, em outro momento.

E lembrou que a questão da pandemia não pode ser política.

“Quem coloca os fatos de forma mais dura, todos os dias, é o vírus. Nós vamos ter que passar por isso. Isso não é nenhum prazer passar por isso. Isso é terrível. Enquanto a gente tiver imprensa livre mostrando os fatos, os fatos vão falar por si”, afirmou 0 ex-ministro da Saúde.

Já Osmar Terra afirmou que a quarentena não consegue evitar a propagação do vírus. “É preciso acalmar a população, ela sabe decidir se for bem informada”, opinou. “Depois que a epidemia está circulando, trancar as pessoas em casa é um erro.”

Por declarações como essa é que se vê, todos os dias, um índice cada maior de aglomerações, ou seja, muitas pessoas acreditam no que falam Osmar Terra e Bolsonaro, e não ficam em casa.

Nesse debate, nem parecia que Mandetta foi um dos parlamentares que votaram contra o Mais Médicos, em 2013. A melhor colocação dele foi sobre o impacto do coronavírus sobre a história. “O século 21 começou com o coronavírus. Os livros de história vão se dividir entre antes e depois do coronavírus”, disse. E nós seremos testemunhas. Isto é, esperamos ser.

Humberto Costa, por sua vez, lamentou que a doença esteja sendo enfrentada sem uma liderança política de âmbito nacional. Com o poder simbólico da palavra, Bolsonaro sabota os esforços de governadores e prefeitos, e conta para isso com Osmar Terra. “O grande peso para que nós tenhamos esta quebra da lógica do isolamento social é a falta de liderança política, é a falta de coordenação e articulação desse processo”, disse.

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