Em defesa dos ativistas que libertaram os beagles

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O ativismo acelera conquistas sociais

E a semana chega ao fim com os brasileiros fascinados e divididos em torno dos beagles. A divisão apareceu mesmo no interior do DCM. Diferentes colunistas expuseram diferentes ideias.

Quanto a mim, entendo que, com todas as ressalvas, não há como deixar de aplaudir os ativistas que libertaram os beagles.

Eles chamaram, com seu resgate espetacular, a atenção para duas coisas importantes.

A primeira é: quais os limites para experimentos com animais? No Brasil, testes com finalidades cosméticas, e não de saúde, ainda são permitidos, ao contrário do que ocorre em países socialmente mais desenvolvidos.

Quando isso seria conhecido de todos e debatido se os ativistas não tivessem irrompido no Instituto Royal?

A segunda é: quem fiscaliza o dinheiro público posto em órgãos como o Instituto Royal? Onde a transparência, onde a prestação de contas?

O papel mais nobre dos ativistas é forçar discussões que, mais tarde, se tornarão consenso. Eles são poucos, são especiais, são abnegados, são à frente de seu tempo, e por tudo isso são incompreendidos e perseguidos.

Recentemente, os ingleses saudaram os 100 anos de morte de uma ativista que foi fundamental para que as mulheres pudessem votar.

Numa corrida de cavalos que reunia a sociedade aristocrática inglesa, ela atravessou subitamente a pista. Foi no momento em que passava o cavalo do rei. A ativista – suffragette – acabou atropelada, e morreu pouco depois no hospital.

Baderneira, vândala, criminosa – a imprensa conservadora britânica tratou-a com todos os insultos possíveis. Não só a ela mas às demais suffragettes. Mas seu sacrifício, como mostraria a história, acabou sendo vital para que as inglesas pudessem votar.

Ontem, em Londres, um debate reuniu mulheres de todo o mundo. O nome era 100 mulheres.

Quem fechou as discussões foi uma jovem islandesa de 19 anos. (Escandinávia, sempre eles à frente do pelotão no desenvolvimento social.) Sua última frase, dirigida a mulheres de todo o mundo: “Não sejam gratas por seus direitos. Agradeçam as mulheres que os tornaram possíveis.”

Clap, clap, clap.

No caso dos beagles, os ativistas fizeram os brasileiros debater a questão dos experimentos como nunca antes.

No calor da discussão, emergiram falsas questões. Uma delas, a mais comum usada contra ativistas pró-animais, é dizer que eles se interessam mais por bichos do que por gente.

É uma tolice. Então teríamos que dizer que os defensores de índios só se importam com os índios, ou que os ativistas do meio ambiente desprezam as pessoas, e daí por diante.

Um ativismo, qualquer que seja, não elimina outras coisas e outras causas. Os avanços sociais dependem do conjunto de ativistas de diferentes cruzadas.

Por tudo isso, os libertadores dos beagles prestaram um serviço não só aos beagles em si, ou aos animais em geral – mas à sociedade como um todo.