Em guerra com os católicos, Trump corta US$ 11 milhões de entidade infantil dos EUA

Atualizado em 16 de abril de 2026 às 8:09
Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: reprodução

A decisão do governo de Donald Trump de cancelar um contrato de US$ 11 milhões com a Caridades Católicas da Arquidiocese de Miami provocou forte reação e levantou acusações de retaliação política contra a Igreja Católica.

O corte ocorre dias depois de ataques públicos do presidente ao Papa Leão XIV.

O financiamento, que vinha do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, sustentava o funcionamento da Vila Infantil Monsenhor Bryan Walsh, em Miami — uma instalação com 81 vagas dedicada a acolher crianças migrantes desacompanhadas, oferecendo abrigo, reunificação familiar e tratamento para traumas. Sem os recursos, o local deverá encerrar suas atividades em até três meses.

A instituição carrega um legado histórico. Foi inspirada no trabalho do padre irlandês Bryan Walsh, que, nos anos 1960, liderou a chamada Operação Peter Pan — a maior ação a favor de menores desacompanhados já registrada no Hemisfério Ocidental.

Ao longo de dois anos, mais de 14 mil crianças foram acolhidas pela rede católica em parceria com o governo americano.

O arcebispo de Miami, Thomas Wenski, criticou duramente a decisão, classificando-a como o fim abrupto de uma colaboração de mais de seis décadas. Segundo ele, o governo está desmontando um programa consolidado e reconhecido pela sua eficácia no atendimento a menores em situação de vulnerabilidade.

Thomas Wenski, arcebispo de Miami. Foto: reprodução

A justificativa oficial do governo é a redução no número de crianças migrantes sob custódia federal. Wenski reconheceu a queda, mas afirmou que isso poderia justificar ajustes — não o encerramento completo de uma estrutura considerada modelo nacional.

O contexto político, porém, é central para entender a crise. Dois dias antes do cancelamento, Trump publicou em sua rede social que o Papa Leão XIV é “fraco no combate ao crime” e “terrível em política externa”.

O ataque veio após o pontífice condenar o que chamou de “ilusão de onipotência” na condução da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.

A resposta do papa foi firme: declarou não ter medo do governo americano e prometeu continuar se manifestando contra a guerra. A crítica de Trump também foi reprovada internacionalmente, inclusive pela primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, que classificou o ataque como inaceitável.

Críticos apontam que o corte de verbas se insere em um padrão mais amplo de confronto entre o governo Trump e instituições católicas. O vice-presidente JD Vance já havia acusado bispos americanos de priorizar interesses financeiros em detrimento de questões humanitárias — declaração posteriormente suavizada após reação da Igreja.

Além disso, outras iniciativas católicas já haviam sido afetadas por congelamentos de recursos federais, e lideranças religiosas chegaram a acionar a Justiça contra medidas do governo relacionadas a programas de reassentamento de refugiados.

Especialistas em direito constitucional afirmam que, se comprovada a motivação política, o corte pode violar a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que proíbe retaliação governamental contra instituições religiosas por causa de suas crenças ou posicionamentos.

Para além da disputa jurídica, o episódio escancara um embate mais profundo. Na doutrina católica, o cuidado com os mais vulneráveis — especialmente crianças — é central. Ao atingir financeiramente uma organização dedicada a essa missão, o governo é acusado de interferir diretamente no exercício da fé e na atuação social da Igreja.

O caso também tem implicações políticas. Apesar de ter conquistado ampla maioria do voto católico nas eleições de 2024, Trump enfrenta agora desgaste entre fiéis, impulsionado tanto pela guerra no Oriente Médio quanto pelos ataques ao papa.

Com cerca de 53 milhões de católicos nos Estados Unidos, a crise sinaliza uma ruptura significativa entre a Casa Branca e uma das instituições religiosas mais influentes do país.

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