
Em vários recados a Donald Trump, Leão XIV criticou duramente “um punhado de tiranos” que, segundo ele, estão devastando o planeta por meio de guerras e exploração, ao pregar uma mensagem de paz nesta quinta-feira em Bamenda, no oeste de Camarões.
O pontífice visitou a cidade, onde multidões tomaram as ruas, buzinando e dançando para recebê-lo. A população celebrou a presença papal como uma rara oportunidade de dar visibilidade internacional à violência que há quase uma década traumatiza a região.
Durante a visita, Leão XIV liderou um encontro inter-religioso pela paz, reunindo um chefe tradicional Mankon, um líder presbiteriano, um imã e uma freira católica. A iniciativa buscou destacar os esforços conjuntos de diferentes religiões para encerrar o conflito e apoiar as vítimas.
Na Catedral de São José, o papa elogiou o movimento pela paz e fez um alerta contra o uso da religião como instrumento político e militar.
“Bem-aventurados os pacificadores! Mas ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para ganhos militares, econômicos e políticos, arrastando o sagrado para a escuridão”, afirmou.
Ele também pediu uma “mudança decisiva de rumo”, longe dos conflitos e da exploração de territórios por interesses econômicos ou militares.
“O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas permanece unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários”, declarou.
A mensagem tem alcance global, voltada a todos os responsáveis por guerras e exploração ao redor do planeta.
Conflito enraizado na história colonial
A crise nas regiões anglófonas de Camarões remonta ao período pós-Primeira Guerra Mundial, quando o país foi dividido entre França e Reino Unido. Em 1961, áreas de língua inglesa se uniram ao território francófono, mas separatistas alegam marginalização política e econômica desde então.
Em 2017, grupos armados iniciaram uma rebelião para criar um Estado independente. O conflito já deixou mais de 6 mil mortos e deslocou mais de 600 mil pessoas, segundo o International Crisis Group.
Durante a missa celebrada para cerca de 20 mil pessoas no aeroporto de Bamenda, Leão XIV denunciou a “corrupção moral, social e política” que trava o desenvolvimento do país. Também criticou a exploração externa do continente africano:
“Aos problemas internos somam-se os danos causados de fora, por aqueles que, em nome do lucro, continuam a explorar e saquear a África”, disse.
A fala ecoa declarações de Papa Francisco, que em visita ao Congo em 2023 pediu: “Tirem as mãos da África!”.
Recursos naturais e interesses internacionais
Camarões possui reservas relevantes de petróleo, gás natural, cobalto, bauxita, ferro, ouro e diamantes — o que torna a extração de recursos um dos pilares da economia. Empresas francesas e britânicas historicamente dominaram o setor, enquanto companhias chinesas ampliaram presença recente, especialmente na mineração de ouro.
Leão XIV alertou que a exploração desses recursos alimenta conflitos:
“Quem rouba as riquezas de sua terra frequentemente investe o lucro em armas, perpetuando um ciclo interminável de desestabilização e morte”.
O arcebispo de Bamenda, Andrew Nkea Fuanya, relatou ao papa que a população sofre com perdas de casas, trabalho e educação, com crianças impedidas de frequentar escolas por anos.